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  • Como promover a Educação Ambiental com o apoio da ciência cidadã

    31 de julho de 2025

    Por Alice Lira Lima, Joana Giacomassa, Karen Sailer e Luan Alves

    Como tornar a educação ambiental uma experiência significativa, que engaje e contribua com a formação da consciência e criticidade sobre o tema? Esse é o foco da nova edição da série “Dicas do INCC”, que contou com o olhar e conhecimento dos pesquisadores Nijima Novello Rumenos e Thiago Paoli para entender como a ciência cidadã pode contribuir.

    Nijima é professora da Unesp em Botucatu, coordenadora do projeto “Clube da Mata” e cocoordenadora da Linha 4 – Formação e Educação do INCC. Thiago é biólogo e doutor em Educação para a Ciência, atua como professor e coordenador pedagógico em uma escola pública de Araçatuba (SP), onde realizou sua pesquisa de doutorado sobre educação ambiental com base na ciência cidadã.

    Os dois têm trajetórias ligadas à educação ambiental em escolas e espaços não formais. Eles entendem que a ciência cidadã é uma aliada para fortalecer ações com esse fim, enquanto forma de construir conhecimento com a comunidade, de maneira cocriada e com protocolos claros e objetivos. 

    O ponto de partida para uma ação educativa realmente efetiva, segundo os especialistas, é simples e essencial: escutar de verdade. Isso significa identificar, junto à comunidade, quais são as demandas socioambientais mais urgentes do território e construir coletivamente os caminhos para enfrentá-las.

    Foi assim que nasceu o Clube da Mata, iniciativa coordenada por Nijima em parceria com a Prefeitura Municipal de São Manuel (SP). “Fomos atrás de ver qual era a demanda social daquele local. A prefeitura precisava de guias da natureza e, a partir disso, estruturamos os cursos de férias e as formações”, conta a pesquisadora.

    O projeto, que acontece na Fazenda Experimental da Unesp, atende cerca de dois mil alunos por ano, com formações voltadas para professores, estudantes e visitas monitoradas para escolas. “A ideia é um trabalho contínuo de formação, com base nas necessidades da comunidade”, complementa.

    Na escola em que Thiago atua, o envolvimento da comunidade também foi essencial para a proposta. Para iniciar seu projeto de pesquisa, ele organizou oficinas com professores e alunos, buscando entender os principais problemas socioambientais percebidos no entorno. A escolha do tema, por exemplo, surgiu após uma reportagem local denunciar a presença de agrotóxicos na água da cidade.

    “A pergunta de pesquisa precisa ser relevante para a comunidade. Isso aumenta o engajamento e a vontade de participar de todo o processo”, afirma o professor.

    Eles reforçam que engajar, de verdade, requer formação adequada, parcerias e protocolos bem construídos. Por isso, os pesquisadores destacam a importância de capacitar os participantes com linguagem clara, objetiva e acessível. Além disso, sugerem que os projetos se estruturem como experiências cocriadas, nas quais os cidadãos participem de todas as etapas – e não só de um momento isolado – da definição do problema até a análise e divulgação dos resultados.

    Thiago acrescenta que a “ciência cidadã cocriada fortalece a confiança na ciência e contribui para uma educação mais crítica e transformadora”.

    Confira as seis dicas dos pesquisadores para promover a educação ambiental por meio da ciência cidadã.

    Nijima Novello Rumenos é cocoordenadora da Linha 4 – Formação e Educação do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC). Bióloga, pedagoga e atualmente professora da Unesp e coordenadora do projeto de extensão “Clube da Mata”. Pesquisadora do projeto de Educação Ambiental Sintrópica (Fapesp) e cofundadora e membro do Grupo de Pesquisa e Estudos em Educação Ambiental, Sustentabilidade e Ambientalização (Gepeasa).

    Thiago Paoli é biólogo, professor de Biologia, coordenador Pedagógico e doutor em Educação para a Ciência (Unesp). Tem foco em práticas didáticas inovadoras e no desenvolvimento do pensamento científico e consciência socioambiental. 

  • Agricultura familiar e ciência cidadã: o campo como lugar de saber e economia social

    25 de julho de 2025

    Por Alice Lira Lima, com apoio de Joana Giacomassa, Karen Sailer e Luan Alves | Foto de destaque: Kamay/Silo

    Meio hectare de terra? Isso é coisa pra caramba!”. A frase, dita quase por acaso por um amigo em uma conversa em 2015, ficou na cabeça da engenheira florestal Evelyn Miranda. Na época, ela vivia em Florianópolis (SC), mas aquele pedaço de terra ocioso no sítio da família, no interior do Rio de Janeiro, equivalente a metade de um campo de futebol, poderia se transformar em uma vida com novos propósitos. E assim aconteceu. Ela decidiu voltar ao local e, junto de Rômulo, seu companheiro, plantou as raízes do que se tornaria a Meio Hectare Produção Orgânica, que é um projeto de cultivo e também um modo de vida.

    O que começou como um retorno afetivo virou também um gesto político em prol da coletividade. Atualmente, Evelyn participa de feiras orgânicas, entrega cestas agroecológicas, comercializa alimentos e até panos de cozinha com arte rústica. Assim, fortalece a cultura camponesa e faz parte de redes como o CaipiratechLAB, projeto da organização da sociedade civil Silo – Arte e Latitude Rural, organização que atua na intersecção entre arte, ciência e tecnologia, com sede na Serrinha do Alambari (RJ). 

    Para Evelyn, a vida no campo faz mais sentido, mas ela lembra que não pode ser romantizada, pois são muitos os desafios mesmo em lugares com potencial. “Todo dia é segunda-feira”, brinca. Sobre essas dificuldades, ela compartilha que, no ano passado, “não houve inverno”. Essa estiagem afetou a produção e gerou um grande impacto financeiro.

    “Além do cultivo, a gente precisa de manutenção em tudo: como fazer para a água chegar aqui, por exemplo. É uma dinâmica cansativa. Há ainda a necessidade de mão de obra, que falta, e a questão das mudanças climáticas”, explica a produtora. Reunindo potencialidades e esses desafios, para ela, “é uma honra contar com a Silo, que cria e desenvolve atividades muito inovadoras, interessantes e diferentes do que se espera”

    Apresentação da Meio Hectare em um encontro da Silo | Foto: Mariana/Silo

    Entre essas atividades, o CaipiratechLAB tem sido a ajuda essencial para construir uma rede necessária, com pessoas de vários lugares, que passam a se conhecer e a se conectar por meio desse ponto de convergência.  Os produtores se unem, compartilham e também pensam em soluções, tanto internas quanto a partir de propostas externas.

    A iniciativa da Silo tem como base a ciência cidadã, campo da produção científica que se constrói com a participação ativa de pessoas que observam, registram e interpretam a realidade junto de pesquisadores em suas respectivas áreas. “A pergunta que nos move é: ‘de onde vem o alimento que você consome?’ Saber isso é ter corresponsabilidade. É reconhecer que quem planta também quer trabalhar de uma forma digna, receber confiança e oportunidade”, afirma Cinthia Mendonça, artista, pesquisadora e diretora da Silo. Além disso, Cinthia integra a Linha 1 – Coprodução e Engajamento Social em Iniciativas de Ciência Cidadã do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC).

    Cinthia Mendonça, diretora da Silo | Foto: Kamay/Silo

    Quando se pensa em ciência cidadã voltada à agricultura familiar, quem produz não deve ser visto como objeto de estudo, mas parceiro e protagonista do conhecimento. “Não é transferência de conhecimento, é troca, com histórias, conversas, saberes. Para isso, movemos alianças improváveis, com artistas, desenvolvedores, camponeses e parceiros”, complementa Cinthia. 

    “A inteligência da plataforma está na simplicidade”

    O CaipiratechLAB nasceu da escuta e da própria história de Cinthia, que é filha de camponeses e voltou ao lugar onde cresceu após estudar Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em uma de suas frentes, o projeto conecta mais de 200 agricultores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, de uma região de montanhas, que atuam em um raio de 100 km, a consumidores locais por meio de uma plataforma digital simples, pensada a partir da realidade de quem vive o dia a dia da produção rural.

    Em 2024, a ferramenta iniciou a fase de testes. “A inteligência da ferramenta está na simplicidade dela. Fomos no mais arrojado: um arranjo produtivo digital com cadeia curta de distribuição. Não inventamos nada, organizamos o que já existe”, explica Cinthia. A plataforma permite que os produtores tenham seus dados fixos e vendam diretamente a famílias, mercadinhos e restaurantes, sem a sobrecarga de atualizar redes sociais ou lidar com ferramentas complexas.

    O CaipiratechLAB é também uma escola viva. Os cursos, construídos com base no que os próprios camponeses querem aprender, abordam temas como agroecologia, finanças, cerâmica, fotografia com celular, aposentadoria rural e audiovisual. A roteirista Rosane Svartman, autora de novelas de sucesso como Vai na Fé, Dona de Mim e Totalmente Demais, por exemplo, já foi uma das convidadas. “Nesse espaço, os professores estudam os alunos. Tudo é muito personificado. O relacionamento e trocas entre cientistas e profissionais de mercado é muito rico, mas precisa ser desenhado estrategicamente para que seja proveitoso, natural e sem constrangimentos”, contextualiza Cinthia.

    Uma das ações do projeto é a vivência com as famílias na sede da Silo, na Serrinha do Alambari. Durante quatro dias, como encerramento de cursos, camponeses, artistas e cientistas partilham momentos de aprendizado, refeições, histórias e saberes. Essa convivência é parte da metodologia que, como comenta Cinthia, faz ‘match’ de necessidades.

    Vivência com as famílias faz parte da metodologia | Foto: Mariana/Silo

    O projeto inverte a lógica dominante da educação e da ciência, que pressupõe que é preciso ir para a cidade para aprender. No CaipiratechLAB, o saber circula até o campo, e algo muito maior cresce, amadurece e ganha seus destinos a partir dali. Para que exista dessa maneira, a Silo conta com parceiros que acreditam na proposta e se somam a ela, como o Instituto Serrapilheira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), universidades, consulados de países, iniciativa privada e outras iniciativas.

    A ciência cidadã, nesse modelo, se baseia na troca. “O camponês quer entender ‘por que tem menos abelha?’, ‘o que está mudando na vegetação?’. A gente convida referências para pensar isso juntos. E também pergunta: ‘o que vocês querem aprender?’”, conta Cinthia. A socialização, o cuidado com a terra, a economia solidária e o trabalho – como um meio de vida que faz sentido para o que é ser camponês. 

    Sobre o termo camponês, Cinthia reforça a importância de retomá-lo, uma vez que a sua imagem sofreu apagamento e danos, por exemplo, durante a Ditadura Militar, como mostram estudos como o artigo de Ricardo José Braga Amaral de Brito intitulado “A luta camponesa e a repressão durante a Ditadura Empresarial-Militar (1964 – 1985)”. A Comissão Nacional da Verdade (CNV), que funcionou de 2012 a 2014 e investigou crimes cometidos de 1964 a 1988, reconheceu no documento final que 41 camponeses estavam entre os 434 mortos e desaparecidos. No entanto, um estudo realizado pelo pesquisador e colaborador da Universidade de Brasília (UnB) Gilney Viana aponta que 1.654 camponeses foram mortos ou desapareceram nesse período.

    A força da agricultura familiar no Brasil

    O Dia Mundial da Agricultura Familiar, celebrado em 25 de julho, reconhece a importância desse modelo para a economia, o meio ambiente e a soberania alimentar. No Brasil, segundo o Censo Agropecuário do IBGE (2017), 77% dos estabelecimentos agropecuários são de base familiar, empregam mais de 10 milhões de pessoas (67% da mão de obra rural) e respondem por 23% do valor total da produção.

    Esse é um modo de viver e se relacionar com a terra, presente em 90% dos pequenos municípios brasileiros. Da agricultura familiar chegam à mesa dos brasileiros alimentos como feijão, arroz, mandioca, hortaliças, leite, frutas e muito mais. 

    “Feirinha da Silo” | Foto: Kamay/Silo

    Além de garantir a segurança alimentar, a agricultura familiar tem um papel importante na mitigação das mudanças climáticas. Em contraste com os modelos intensivos de produção, é comum que agricultores familiares adotem práticas agroecológicas, com manejo sustentável dos recursos naturais, preservação da biodiversidade e cuidado com o solo. Esse modo de produção contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa e torna os sistemas agrícolas mais resilientes a eventos climáticos extremos.

     

    Monitoramento e garantia de acessos

    A ciência cidadã também está presente em órgãos como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que desde 2015 atua no Programa Garantia-Safra, gerando dados que ajudam na formulação e garantia de acesso a políticas públicas voltadas aos agricultores mais vulneráveis. Um desses passos é o desenvolvimento e divulgação do Boletim de Monitoramento de Impactos de Seca na Agricultura Familiar, que leva em consideração a ameaça meteorológica e a vulnerabilidade de cada local.

    “Nosso foco é sempre quem fica à sombra da grande produção”, afirma Ana Paula Cunha, coordenadora de Relações Institucionais e pesquisadora em secas no Cemaden. A agricultura familiar é mais vulnerável aos eventos climáticos, então o Cemaden, que surgiu para pesquisas voltadas ao semiárido brasileiro, foca nos mapas de risco, boletins de seca e ferramentas específicas cujos dados orientam decisões nos municípios e políticas públicas.

    Um dos projetos desenvolvidos pelo Cemaden foi o Seca-Wiki, plataforma participativa que permitia a agricultores e técnicos registrarem, por celular e de forma simplificada, dados sobre chuvas, manejo do solo e impacto da seca nas plantações. “Eles nos ajudam a entender o que acontece em campo e, com isso, conseguimos ajustar nossas análises e alertas”, diz Ana Paula.

    Por meio desse projeto, 500 equipamentos de monitoramento foram viabilizados e estão instalados em áreas mapeadas. Apesar de o aplicativo não estar mais ativo, os dados gerados continuam sendo utilizados para orientar ações de órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)  e do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). É um trabalho técnico, mas a escuta também é fundamental. “Para nós, que somos órgão de monitoramento, é essencial ouvi-los, principalmente para entender se o que a gente indica condiz com a realidade no campo”, reforça Ana Paula.

    O índice de vulnerabilidade considera fatores como acesso à água, renda, participação em cooperativas e dados do Censo Agropecuário. “A nossa contribuição direta para o agricultor é via políticas públicas. Para que aquele que perdeu receba o benefício. A nossa ação é para que eles sejam assistidos, quando de fato precisarem”, explica Ana Paula.

    Para que o trabalho do Cemaden aconteça, há a participação de parceiros como universidades, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O Centro atua em relação à agricultura familiar de Norte a Sul, mas nem todas as regiões são afetadas por extremos.

    Ana Paula relata ainda que, há dez anos, os municípios mais afetados com as secas estavam muito concentrados nas regiões Nordeste e Norte do país, porém, principalmente devido às mudanças climáticas, o cenário tem mudado e secas e estiagens são registradas em outras localidades, como nos estados do Amazonas, Rio Grande do Sul e São Paulo, por exemplo. Por isso, ela considera importante uma revisão das políticas públicas voltadas ao tema.

  • Evento destaca plataformas abertas e infraestrutura colaborativa na ciência cidadã

    9 de julho de 2025

    Por Alice Lira Lima | Apoio: Joana Giacomassa, Luan Alves e Karen Sailer

    Quais os tipos de plataformas abertas e infraestruturas interoperáveis vêm sendo utilizadas na ciência cidadã no Brasil? O tema, que é de interesse de pesquisadores de diversas áreas, foi apresentado na 6ª edição do ciclo de webinários “Diálogos em Ciência Cidadã”, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ciência Cidadã (INCC). O evento, transmitido ao vivo pelo YouTube na última quarta-feira (2), reuniu especialistas para expor ferramentas tecnológicas de mapeamento, catalogação e compartilhamento de dados, com foco na importância da ciência aberta e da governança dos dados.

    Mediado por Allan Yu Iwama, engenheiro ambiental e doutor em Ambiente e Sociedade, o webinário, que teve como tema “Tecnologias e Infraestruturas na Ciência Cidadã”, mostrou as infraestruturas tecnológicas iNaturalist, eBird e Visão, bem como os objetivos, a usabilidade e a abertura das ferramentas para a pesquisa. 

    A primeira apresentação foi de Clara Baringo, mestre em Gestão Ambiental, que atua no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Com experiência em pesquisa, gestão e padronização de dados de biodiversidade, ela apresentou o SiBBr – plataforma on-line, coordenada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), lançada em 2019, gratuita e de acesso livre, que integra dados de coleções biológicas, projetos do setor privado, licenciamento e iniciativas de ciência cidadã. A pesquisadora destacou dois projetos que alimentam a base de dados: o iNaturalist e o eBird, que juntos representam cerca de 50% dos registros de ciência cidadã brasileira agregados no SiBBr (aproximadamente 17,5 milhões do eBird e 1 milhão do iNaturalist).

    Passados seis anos desde a criação, o número de registros na plataforma já triplicou. “Os principais benefícios da ciência cidadã na biodiversidade são aumento no engajamento social, estímulo à participação da sociedade no monitoramento e conservação da biodiversidade, valorização do conhecimento local e tradicional, integração de saberes diversos e reconhecimento das observações e projetos das comunidades. Além disso, fortalece a rede de conhecimentos, trocas entre pesquisadores, cidadãos, coordenadores, gestores, amplia o número de registros e também contribui para políticas públicas”.

    Um exemplo do resultado desse trabalho foi o relatório apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, que utilizou mais de 22 milhões de registros da plataforma. Além de contribuir para catalogar, essa iniciativa ajudou a identificar lacunas de informações relacionadas à biodiversidade. Por isso, como aponta Clara, o apoio tecnológico é fundamental para ampliar as ações de ciência cidadã. No SiBBr, qualquer projeto de ciência cidadã relacionado à biodiversidade pode ser cadastrado. O processo é simples e permite incluir informações como formas de participação, responsáveis, dados coletados, licenças e há suporte para treinamento online. A pesquisadora recomendou ainda que os dados publicados privilegiem fontes nacionais, pelo fortalecimento da ciência aberta brasileira.

    Usabilidade das plataformas

    A plataforma tem filtros para que seja possível selecionar os registros por tema ou localização, por exemplo. Esses e mais detalhes foram apresentados em seguida, por Keila Juarez, mestre em Ecologia e doutora em Biologia Animal, com experiência em políticas públicas na gestão da biodiversidade no Ibama e Ministério do Meio Ambiente. A pesquisadora fez demonstrações práticas do uso da plataforma SiBBr: como visualizar iniciativas, cruzar dados de fontes diversas para apoiar pesquisas, cadastrar um registro e ainda explicou a importância dessas interações.

    Como exemplo, Keila apresentou registros da raia, espécie criticamente ameaçada, e a contribuição dos dados catalogados de ciência cidadã para preencher lacunas temporais e geográficas. Utilizar e expor essas informações, no entanto, também exigem cuidados no desenvolvimento dessas ferramentas, como “não expor coordenadas para espécie ameaçada ou plantas, como a orquídea”, explicou a cientista. Essa atenção é necessária para a proteção de espécies vulneráveis que podem ser alvo de coleta predatória ou outras ameaças.

    A última palestrante, Nathaly Leite, mestre em Ciência da Informação e bacharela em Arquivologia pela Universidade de Brasília, integra desde 2018 a equipe do sistema Visão, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Nataly o apresentou como um instrumento de ciência aberta para visualização geoespacial, de forma dinâmica, e catalogação das iniciativas locais de ciência cidadã.

    Durante a pesquisa que motivou a criação da ferramenta brasileira, o grupo observou que outras plataformas internacionais, como as da Espanha e dos Estados Unidos, também lidam com desafios semelhantes de localização e governança. “Conseguir visualizar as iniciativas de ciência cidadã locais é fundamental para fortalecer a participação e promover um uso consciente dos dados”, comentou.

    E por que ciência aberta em uma ferramenta de visualização de dados em mapas? “Justamente para dar essa característica de repositório. A gente fez um mapeamento de todas as instituições no Brasil que publicam dados abertos com característica geoespacial e criou um repositório centralizado e aberto para que as pessoas que utilizam o Visão possam, além de usar os dados que coletou na própria pesquisa ou no seu contexto, possam mesclar com conjuntos de dados abertos de instituições de pesquisa”. Ainda é possível complementar ou criar um novo conjunto de informações, de modo a dar continuidade àqueles que já foram ali publicados.

    A ferramenta, criada em 2020, também procura ser útil à tomada de decisão e à gestão de políticas públicas. Por isso, por meio dela, é possível apresentar os dados de maneira dinâmica, criar redes de gestão e compartilhamento de dados que podem se tornar indicadores, além de fazer integração com a plataforma de ciência cidadã Cívis

    Ciência aberta e segurança

    Ao longo do evento, os participantes interagiram com perguntas e comentários que reforçam a relevância das tecnologias apresentadas. O webinário destacou também a importância de discutir licenças e cuidados com dados sensíveis, especialmente os relativos a comunidades tradicionais e espécies ameaçadas. Sobre isso, o mediador Allan Yu enfatizou a necessidade de se pensar em “sistemas de governança” e questionar como vai ser utilizado o dado coletado para garantir seu uso ético e responsável. Para ele, é essencial que quem vai usar esse tipo de dado já preveja ‘quem, para quê, quando e como’ vai ser utilizado.

    A palestrante Keila explicou que existem diferentes tipos de licenças que operam nas plataformas apresentadas, as quais são usadas de acordo com a finalidade, sempre com a atenção de não expor ou tornar vulneráveis comunidades, espécies, entre outras. Clara Baringo acrescentou a importância do diálogo constante para entender quais tipos de dados podem ser publicados. Como foi falado na conversa, esse tema merece atenção e um diálogo contínuo para entender as necessidades do país e como as possibilidades tecnológicas podem atendê-las.

    Assista ao webinário

    Ciclo “Diálogos em Ciência Cidadã”

    O ciclo de webinários “Diálogos em Ciência Cidadã” é promovido pelo INCC em parceria com a Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e conta com o apoio da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

    Para receber novidades do ciclo e acompanhar os próximos eventos, inscreva-se nas redes sociais do INCC.

  • Como integrar o Instituto Nacional de Ciência Cidadã

    7 de julho de 2025

    Gostaria de contribuir com as atividades do Instituto Nacional de Ciência Cidadã? O INCC é uma rede de pesquisa, que conta com o apoio do CNPq e da CAPES, iniciado em janeiro de 2024 e com término previsto para dezembro de 2028. Seu objetivo é  promover o avanço do conhecimento científico e tecnológico, de caráter inter e transdisciplinar, para o desenvolvimento, a inovação, o debate crítico e a disseminação de conceitos, práticas, metodologias e usos da Ciência Cidadã no Brasil. Confira como você pode se vincular ao Instituto:

    1º passo: Primeiro, você precisa encontrar uma linha de pesquisa e atuação com a qual se identifique. O INCC estrutura-se em sete linhas de investigação e ação e reúne as principais instituições, grupos de pesquisa e pesquisadores do país atuantes na área da Ciência Cidadã. Acesse o link para conhecer as linhas: https://incc.ibict.br/linhas/ 

    2º passo: Ficou interessado em uma das linhas de pesquisa e ação ou gostaria de saber mais sobre uma delas? Então, você deverá entrar em contato com a coordenação da linha para a conhecer melhor  e verificar as possíveis formas de colaboração. Confira abaixo o contato dos coordenadores:

    L1 – Coprodução e Engajamento Social em Iniciativas de Ciência Cidadã
    ➜ Coordenação: Blandina Felipe Viana (blande.viana@gmail.com) e Allan Yu Iwama (allan.iwama@gmail.com)

    L2 – Tecnologias, Ferramentas e Infraestruturas
    ➜ Coordenação: Angelo Conrado Loula (angelocl@uefs.br) e Bruno de Carvalho Albertini (balbertini@usp.br)

    L3 – Governança, Avaliação e Protocolos
    ➜ Vanessa Jorge (vanessa.jorge@fiocruz.br), Sarita Albagli (sarita.albagli@gmail.com) e Anne Clinio (anneclinio@gmail.com)

    L4 – Formação e Educação
    ➜ Natalia Pirani Ghilardi-Lopes (natalia.lopes@ufabc.edu.br), Nijima Novello Rumenos (nijima.novello@unesp.br) e Rodrigo Arantes Reis (reisra@gmail.com)

    L5 – Disseminação Social e Subsídios a Políticas
    ➜ Karen Sailer Kletemberg (comunica.incc@ibict.br)

    L6 – Arcabouço Teórico-Conceitual
    ➜ Sarita Albagli (sarita.albagli@gmail.com) e Pedro Bravo (pedro.bravo@ufabc.edu.br)

    3º passo: Caso a sua colaboração seja viável e condizente com os objetivos e metas do INCC, a coordenação da linha encaminhará uma carta de anuência, a qual indica sua concordância em participar das atividades da linha em questão, que deverá ser assinada.

    Por fim, é importante salientar que o INCC não oferece auxílio a projetos individuais dos membros. O Instituto possui um plano de ação estabelecido e um cronograma de atividades a serem realizadas durante o período de sua existência. 

    Ficou com alguma dúvida? Entre em contato por meio do e-mail: incc@ibict.br