Na mídia
Publicações recentes
-
Uma costura de conexões: o programa de Ciência Cidadã do INMA e as ligações com o INCC
18 de setembro de 2025Por Gabriel Domingos e Alice Lira Lima Imagem de destaque: Regina Fornaciari/ Imagem ampliada com recurso de IA do Photoshop Apoio: Joana Giacomassa, Karen Sailer e Luan Alves
“Não foi uma linha reta, meio que foi acontecendo”, comenta Natalia Pirani Ghilardi-Lopes, vice-coordenadora do Instituto Nacional em Ciência Cidadã (INCC). Entre 2010 e 2020, várias pessoas que trabalhavam com ciência cidadã, de forma individual, foram identificando suas pesquisas com o tema.
Na Universidade Federal do ABC (UFABC), por exemplo, as pesquisas em ciência cidadã, com foco na educação, emergiram com maior força a partir de 2014. Em 2017, outro ano importante nessa linha de costura, Natalia esteve em Brasília (DF) para um workshop: “foi lá que eu conheci os professores Blandina Viana, Antônio Saraiva e Paula Drummond. A Paula foi posteriormente, quem indicou meu nome para ser supervisora externa do Programa de Ciência Cidadã no INMA”, conta Natalia.
Essa supervisão aconteceu no Programa de Capacitação Institucional (PCI) do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), lançado em 2020 e dentro do qual foi proposto o Programa de Ciência Cidadã. Natalia atuou na orientação dos bolsistas do programa, cada um com um subprojeto de ciência cidadã em especialidades como: aves, anfíbios, répteis, borboletas, água, entre outros. Esse trabalho de supervisão era voluntário e tinha como objetivo a consolidação da ciência cidadã como um campo de pesquisa e de prática no instituto.
Em paralelo, também no final de 2020, Natalia e outros pesquisadores trabalharam na criação da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC), que seria lançada oficialmente em 2021. Os pesquisadores Angelo Loula, Larissa Kawabe, Sheina Koffler, Caren Queiroz, António Saraiva, Blandina Viana e bolsistas do INMA, como Eduardo Alexandrino e Juliana França estiveram na origem da RBCC. “Essas pessoas se uniram para criar a rede como um movimento para fortalecer a ciência cidadã no Brasil. Era uma missão contribuir para que as pessoas que pesquisavam o tema se enxergassem dentro do campo”, conta.
O INMA foi pioneiro em incorporar a ciência cidadã na instituição. O termo está presente no planejamento estratégico do Instituto e fez parte, inclusive, do perfil de vagas do último concurso público para servidores da instituição. O diretor da instituição, Dr. Sérgio Lucena, foi uma pessoa chave para incorporar a ciência cidadã como uma abordagem central de aproximação dessa instituição com a sociedade.
Uma das questões que explicam o pioneirismo do INMA é porque já existe uma tradição da ciência cidadã nas áreas ambientais. Isso se explica, segundo Natalia, porque a ciência cidadã ajuda na identificação de novas espécies, na prevenção à invasão de espécies exóticas, na verificação de status de conservação e investigação de outras lacunas de conhecimento, as quais podem ser preenchidas a partir de dados gerados pela ciência cidadã.

Natalia Ghilardi-Lopes, uma das fundadoras da RBCC e vice-coordenadora do INCC | Foto: Luan Alves
Outro aspecto que dá força para os projetos na área ambiental é o “apelo emocional e afetivo. As pessoas querem e têm apreço por fazer os registros de determinada espécie e contribuir para a sua conservação”, afirma. A pesquisadora reforça esse aspecto humano que faz as pessoas se sentirem bem em contribuir com o processo científico: “isso dá um caráter de força e empoderamento para as pessoas”, afirma.
Um dos fatores que pode fortalecer um projeto de ciência cidadã é o apelo e a relevância do objeto de estudo para as pessoas que vão atuar e o impacto dos resultados obtidos na melhoria da qualidade ambiental. Um outro fator pode ser o foco em poucas espécies ou em espécies chamativas ou carismáticas. “Quando o projeto foca em poucas ou uma única espécie, tende a ter mais sucesso”, avalia. Contudo, os projetos com esta característica visam, a partir da conservação destas poucas espécies, ajudar a melhorar também o ambiente em que elas vivem e, dessa forma, contribuir para toda a biodiversidade que ocupa o habitat dessa espécie mais carismática.
As conexões estão ficando cada vez mais extensas e fortes. “As pessoas estão fazendo acontecer e estão levando a ciência cidadã para dentro de suas instituições. Vira e mexe somos procurados por outras instituições e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e cada vez mais as pessoas querem fazer parceria com a gente”, diz.
O projeto Borboletas Capixabas
Esse vínculo afetivo que Natalia descreve também é visto na história de Laura Braga, bióloga responsável pelo projeto Borboletas Capixabas, parte do Programa de Ciência Cidadã do INMA.

Laura Braga, do projeto Borboletas Capixabas
Na adolescência, uma borboleta fez uma crisálida (estágio de pupa na metamorfose de uma borboleta, que é a transição entre a lagarta e o adulto) na sua colcha de cama. Aquele processo foi acompanhado com cuidado por Laura, que continua encantada por elas e, agora, com encantamento compartilhado — e pela ciência.
Essa curiosidade da adolescência se tornou uma iniciativa reconhecida nacionalmente. “Desde nova eu já anotava, fazia desenhos… Com o tempo, percebi que não havia muitos registros organizados sobre a diversidade de espécies no Espírito Santo. Foi aí que surgiu a ideia de transformar essa paixão em um projeto coletivo”, conta.
Criado em 2022, o Borboletas Capixabas busca engajar a sociedade na geração de conhecimento sobre a composição e distribuição das espécies de borboletas no Espírito Santo. A estratégia foi usar uma ferramenta próxima de todos, o Instagram. Os participantes compartilham registros fotográficos, a equipe científica valida as informações e organiza os dados. “Hoje temos mais de dois mil registros enviados por cientistas cidadãos, que nos ajudam a mapear a ocorrência de espécies em diferentes regiões do estado”, explica Laura.
Para engajar participantes, as estratégias incluíram cartazes, divulgação em palestras, atividades escolares e postagens. Aos poucos, o alcance foi crescendo também por meio de indicações. Para conhecer melhor quem participava, ela aplicou questionários e viu que há um perfil predominante: “a maioria é de mulheres, principalmente na faixa de 30 a 50 anos, mas temos todas as idades representadas”.
Professores, estudantes, fotógrafos amadores, moradores do interior e até grupos escolares passaram a fazer parte. Para a bióloga, essa diversidade é o que dá força ao projeto. “Tem gente que nunca tinha pensado em observar borboletas, mas começa a participar e passa a olhar o ambiente de outra forma. A pessoa aprende, ensina e se sente parte da ciência”.
Além do engajamento nas redes sociais, o Borboletas Capixabas também tem foco na educação científica na escola, trabalhando com projetos cocriados com os estudantes a partir de uma metodologia estruturada.
Conservação da Mata Atlântica
Diversos registros inéditos ampliaram o conhecimento sobre a fauna local e fortalecem ações de conservação da Mata Atlântica. “As borboletas são excelentes bioindicadores. Quando conseguimos identificar uma espécie rara em determinada área, isso ajuda a direcionar esforços de preservação. É a ciência cidadã contribuindo diretamente para a conservação”, destaca.

A cientista cidadã Regina Fornaciari
Entre as histórias que se destacam, Laura cita a cientista cidadã Regina Fornaciari, participante engajada e apaixonada pelas borboletas. “Ela começou a fotografar borboletas no quintal de casa e agora já fez centenas de registros. É inspirador ver como a ciência cidadã transforma a relação das pessoas com a natureza”, comenta.
Sobre a atuação do INMA, Laura comenta que é sem dúvida, um berço da ciência cidadã no Brasil. “Estar dentro de uma instituição que valoriza e apoia esse tipo de iniciativa dá legitimidade, amplia o alcance e mostra que a sociedade pode, sim, ser protagonista na produção do conhecimento científico”.
Superar o medo de larvas para contribuir com a preservação
A cientista cidadã citada por Laura, Regina Fornaciari, de Cariacica (ES), também se encantava pelas borboletas, mas tinha medo da fase de lagartas. Dona Regina lembra que a mãe plantava flores e ela gostava de observá-las no jardim.
O contato mais próximo aconteceu em 2022, quando começou a fotografar e postar no Instagram, incentivada pela filha. Logo conheceu o projeto Borboletas Capixabas e passou a mandar registros para Laura, que a ajudava a identificar as espécies. “No começo, eu não sabia direito, pesquisava na internet, mas não tinha certeza e a Laurinha identificava. Hoje já consigo reconhecer várias espécies sozinha”, conta.
Com o tempo, o jardim de Dona Regina se transformou em um espaço de cuidado e aprendizado. Ela passou a deixar as plantas crescerem naturalmente, sem arrancar aquelas que servem de alimento para lagartas. Também começou a acompanhar o ciclo completo. “Já consegui filmar a hora de sair da crisálida. Acordava até de madrugada para tentar ver. Quando acontece, é uma alegria enorme”, descreve.
Aos poucos, o medo virou convivência. “Ainda tenho receio das lagartas, mas hoje consigo olhar, pegar a folha onde elas estão. Com a borboleta não tem problema, pego na mão. Aprendi a cuidar de tudo que faz parte e agora planto até espécies de plantas que elas gostam”, afirma.
Os netos de Dona Regina também passaram a compartilhar esse gosto e todos em casa sabem respeitar o jardim. “Quando viajo, deixo avisado: tem três borboletas para nascer, cuidem delas”, brinca.
Nas redes sociais, ela compartilha fotos e vídeos, adiciona informações sobre as espécies e troca ideias com outros participantes do projeto. “Fico feliz por contribuir com a ciência. O meio ambiente está tão devastado, a gente precisa cuidar. Quem olha meu quintal pode achar bagunçado, mas é o que as borboletas precisam. Cada coisa tem importância”, reflete.
A rotina de observação também se tornou uma forma de bem-estar para a cientista cidadã, que já foi professora, é dona de casa e cuidadora. E quem sabe, no futuro, poderá até se tornar bióloga – algo que ainda está em avaliação. “Todo dia de manhã o meu trabalho é esse: fotografar, olhar o que nasceu. Não tem estresse, não tem problema. Eu acho que, se mais pessoas estivessem conectadas com a natureza, teriam menos problemas de saúde”, diz.
Conheça mais projetos do INMA
Ver essa foto no InstagramConheça mais sobre o trabalho do INMA, seus projetos e como ser cientista cidadão, assim como Dona Regina: acesse o Instagram e o site.
-
INCC abre chamada para bolsa de pós-doutorado
12 de setembro de 2025O Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) está com chamada aberta para uma bolsa na modalidade pós-doutorado (CAPES). O bolsista irá integrar a Linha 3 do Instituto, intitulada “Governança, Avaliação e Protocolos”, sob a supervisão de Vanessa Jorge (Fiocruz), Sarita
Albagli (IBICT) e Anne Clinio (Fiocruz). A linha tem como objetivo tratar as questões que se apresentam para a Ciência Cidadã na definição de protocolos, normas, sistemas e critérios de avaliação e de seus sistemas de governança.A bolsa terá duração de 12 meses e o período de dedicação é de 40 horas semanais. O trabalho é remoto, mas o candidato precisa ter a disponibilidade de viajar para eventuais encontros da linha de pesquisa. Entre as atribuições, estão as seguintes atividades:
➜ Participar e contribuir nas atividades de pesquisa, formação, difusão e produção científica da Linha 3, colaborando para o alcance de seus objetivos e metas.
➜ Produzir conteúdo para guias e atividades de formação e capacitação.
➜ Atuar em sinergia com as demais linhas de pesquisa do INCC, especialmente com a Linha 2 – Tecnologias, Ferramentas e Infraestrutura.
➜ Contribuir para a produção científica do INCC, na forma de publicações e apresentação em eventos.Acesse o edital completo, confira os requisitos e como se candidatar!
-
Oportunidade para projetos de ciência cidadã: chamada pública destina R$ 6 milhões em recursos
9 de setembro de 2025Por Alice Lira Lima, com apoio de Joana Giacomassa, Karen Sailer e Luan Alves
Foto: Fernando da Costa Pinheiro
Como aproximar ciência e sociedade na busca de soluções para desafios ambientais urgentes? Essa é a proposta da segunda chamada aberta do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), lançada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).
Aberta até 9 de outubro, a iniciativa destina R$ 6 milhões — mais que o dobro da edição anterior, de 2019 — para apoiar projetos de síntese em biodiversidade e, pela primeira vez, também de comunicação científica.
O SinBiose é um programa do CNPq voltado à “ciência de síntese”, que busca a integração de diferentes bases de dados, saberes e disciplinas para produzir conhecimento original e útil à sociedade.
Oportunidades para a ciência cidadã
A bióloga, agrônoma e doutora em ecologia Blandina Felipe Viana, “Blande”, que é coordenadora da Linha 1 (Coprodução e Engajamento Social em Iniciativas de Ciência Cidadã) do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC), coordenadora, cofundadora e membro da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC), explica que projetos de ciência cidadã estão especialmente alinhados ao perfil da chamada, pois já nascem com uma característica interdisciplinar e transdisciplinar.
“Isso porque elas já conectam diferentes áreas do conhecimento científico-acadêmico com outros saberes e experiências não acadêmicos, engajando atores sociais como sujeitos do processo de produção do conhecimento, e não apenas como objetos de estudo”, explica Blande.
Ela ressalta que é importante que as propostas destaquem o potencial da ciência cidadã principalmente nos seguintes aspectos:
–Aproximação entre ciência e sociedade para a geração de conhecimentos úteis e transformadores;
–As metodologias inovadoras que serão empregadas para o engajamento social e a integração da ciência acadêmica com outras formas de conhecimento;
–Produção da síntese: como a ciência cidadã pode favorecer o desenvolvimento de estratégias e/ou ferramentas abertas, acessíveis e aplicáveis à tomada de decisão;
–De que forma os resultados das sínteses propostas irão contribuir para resolução de problemas e/ou formulação de políticas públicas.
A pesquisadora do INCC reforça ainda o papel estratégico de chamadas como essa no cenário científico nacional. “Chamadas desse tipo têm um papel muito importante dentro da política científica e tecnológica brasileira, pois reconhecem que a ciência não se faz apenas dentro de ambientes acadêmicos, entre pares, mas também em diálogo com a sociedade”, complementa Blandina.
Ela acrescenta que essas chamadas oferecem oportunidades reais para iniciativas de ciência cidadã se estruturarem, se manterem e ganharem escala e impacto, com a formação de redes de colaboração e conexões entre grupos acadêmicos e não acadêmicos, por exemplo. “Em suma, funcionam como catalisadores que transformam boas ideias em resultados concretos para ciência e sociedade”, finaliza.
Saiba mais sobre a chamada
Recursos: R$ 6 milhões (R$ 5,6 milhões do CNPq + R$ 400 mil do MMA; com possibilidade de aporte adicional das FAPs estaduais).
Linhas de apoio
– Projetos de síntese de conhecimento: até R$ 700 mil por proposta (R$ 400 mil em custeio/capital + R$ 300 mil em bolsas DTI).
– Projeto de comunicação científica: até R$ 400 mil por proposta (R$ 200 mil em custeio/capital + R$ 200 mil em bolsas ADC e DTI).
Restrições
O capital não pode ultrapassar 5% do valor global.
Apoio adicional: Fundações de Amparo à Pesquisa de sete estados já aderiram (Amazonas, Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Piauí). Outras FAPs poderão se somar.
Prazo de submissão: até 9 de outubro de 2025.
Experiência da primeira edição
Em 2019, a primeira chamada do SinBiose investiu R$ 2,7 milhões em sete projetos. Os resultados incluem a criação de bases de dados inéditas, como Taoca (dados ecológicos da Amazônia), Redes Socioecológicas (mamíferos e zoonoses) e Trajetórias (dados ambientais, epidemiológicos e econômicos da Amazônia). Também foram publicados 37 artigos em periódicos de alto impacto e uma série de Policy Briefs com mensagens-chave para apoiar políticas públicas.
Acesse aqui a página da Chamada CNPq/MMA/CONFAP/FAPs Nº 15/2025 – SinBiose.

-
Ciência e quadrinhos: conheça a iniciativa de ciência cidadã “Guardiões dos Polinizadores”
5 de setembro de 2025Por Alice Lira Lima, com apoio de Joana Giacomassa e Karen Sailer
Ilustrações da matéria: Luan AlvesA estudante Vitória poderia ser qualquer jovem do Brasil. Com curiosidade, sonhos e dúvidas, ela descobre que a ciência não é um saber distante, feito apenas por especialistas em laboratórios. Na HQ Guardiões dos Polinizadores, a adolescente mostra como todos podem participar da produção de conhecimento científico, ajudar a preservar a natureza e aprender sobre ela.
A iniciativa é fruto de uma parceria entre o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Inter e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução (INCT IN-TREE); os projetos de ciência cidadã Guardiões da Chapada e Guardiões dos Sertões; e professores e estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Essa ideia se soma às que buscam tornar a ciência acessível, lúdica e transformadora, com a arte e a educação em prol da conservação ambiental e da formação cidadã.
Até Vitória envolver os leitores na sua trajetória, um grupo reuniu seus conhecimentos, habilidades e “paixões” em um processo de cocriação que seguiu várias etapas, como contam a bióloga, agrônoma e doutora em ecologia Blandina Felipe Viana, que é coordenadora da Linha 1 (Coprodução e Engajamento Social em Iniciativas de Ciência Cidadã) do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC), coordenadora, cofundadora e membro da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC); e o biólogo e divulgador científico Wendell Gaudêncio, roteirista do projeto.

Paixão antiga que virou estratégia de ciência cidadã
Para que essa história em quadrinhos ganhasse vida, “paixões” de longa data foram resgatadas. Blandina, ou “Blande”, como é chamada, é leitora de quadrinhos desde a infância. “Adulta, me apaixonei pelas graphic novels [tipo de publicação que combina elementos da literatura e da arte gráfica para contar uma história de forma sequencial]. Sempre quis trabalhar com essa linguagem, porque une texto e imagem e torna o aprendizado muito mais efetivo”, conta.
Wendell também cresceu com o gosto por esse universo. Suas primeiras leituras vinham da revista Sesinho, produção do Serviço Social da Indústria (Sesi) que já trazia conteúdos científicos para crianças. “Eu cresci com o Sesinho. Sempre fui apaixonado por quadrinhos, nessa pegada de ciência. Depois vieram os super-heróis e a ficção científica”, lembra.
Para os dois, a oportunidade de utilizar os quadrinhos como recurso pedagógico surgiu em meio à pandemia, com o desafio de aproximar ciência e sociedade por meio da ciência cidadã.

Por que quadrinhos na educação?
Pesquisas e experiências pedagógicas já apontavam os quadrinhos como ferramentas eficazes para o ensino por tornarem a aprendizagem mais dinâmica, interdisciplinar e prazerosa, com incentivo ao pensamento crítico e à leitura.
“Existe possibilidade de várias aplicações práticas. O professor pode, por exemplo, tentar produzir, trazer fatos históricos, fazer releitura de temas, narrativas textuais e trabalhar a construção com os alunos em sala de aula”, explica Blande.
A pesquisadora explica que a pandemia de Covid-19 reforçou a urgência de novas linguagens para comunicar ciência. Em meio ao negacionismo e à desinformação, surgiu então a ideia de produzir uma HQ que tratasse dos polinizadores e da própria natureza da ciência e da importância da cidadania científica.

Do método à cocriação
Transformar a ideia em prática exigiu pesquisa cuidadosa. A equipe utilizou o Modelo de Reconstrução Educacional (MRE) e princípios da design research, que se concentra em entender o comportamento e as necessidades das pessoas a fim de criar soluções de design, os quais envolvem ciclos de validação. A utilização do MRE foi uma proposta do Laboratório de Ensino de Biologia (LEBio), que faz parte da UEPB e é coordenado pela professora Roberta Smania-Marques
O processo começou com o levantamento das concepções do público-alvo: estudantes do ensino médio. A partir daí, foram escolhidos os conceitos centrais da HQ: 14 sobre a natureza da ciência (como desconstruir a imagem do cientista inalcançável, geralmente de um homem branco de jaleco), conteúdos sobre ecologia de interações entre plantas e polinizadores e princípios da ciência cidadã.
“Quem quer comunicar para todo mundo acaba não comunicando para ninguém. Porque se eu vou falar com uma pessoa que tem uma formação no ensino superior, é uma linguagem. Se for para um aluno do ensino médio, é outra completamente diferente”, resume Wendell.
Outro cuidado foi o cenário regional. Como o projeto nasceu ligado à Chapada Diamantina, elementos locais foram inseridos para gerar identificação: paisagens, modos de falar e personagens. A pesquisadora e professora Paolla Almeida, que vive no local, ajudou a garantir a autenticidade cultural.
“Partimos do local para o universal. Embora os personagens sejam situados num contexto específico, a problemática é universal.”, explica Blandina.

Vitória, uma cientista em formação
A protagonista da HQ não é uma super-heroína clássica. Vitória é uma estudante que descobre a ciência na prática, questiona, erra, revê, aprende. A sua vivência procura quebrar estereótipos e lembrar que todos podem contribuir para a produção científica em um processo, claro, que também precisa ser conhecido e seguido.
“Todo mundo pode fazer ciência, mas não é qualquer coisa que é ciência. Queríamos mostrar o rigor e também a participação coletiva”, explica Blande.
Nas páginas, Vitória aprende a observar sinais das plantas que atraem polinizadores, entende que hipóteses precisam de evidências e descobre que ser cientista não é ser “famoso”, mas participar de uma comunidade que constrói conhecimento com método e ética em uma vida real.
As ilustrações de Felipe de Oliveira dão vida a esse processo e o glossário ilustrado complementa os conceitos que não cabiam nos balões de fala.
Um trabalho coletivo e cheio de detalhes
A HQ foi resultado de muitos encontros on-line, devido à pandemia. Primeiro, Wendell produziu um conto ilustrado, validado em oficinas com professores e estudantes da Chapada Diamantina. Depois, o material foi adaptado para o formato de quadrinhos com a colaboração de toda a equipe.
“Não basta ter a história. Cada página precisa ser pensada para emocionar, sem dar spoiler. Escrever conceitos científicos em balões pequenos é um desafio enorme: cada palavra conta”, diz Wendell.
Foi um ano e meio de produção, marcada por revisões, ajustes e “desapegos”. Os conteúdos que não cabiam na HQ foram transferidos para o glossário.

Recepção e próximos passos
O retorno inicial tem sido muito positivo. Professores e estudantes se reconheceram nos personagens e no cenário. A HQ já está sendo usada como material didático e a segunda edição trará melhorias a partir dos primeiros feedbacks.
O próximo passo será a aplicação formal em escolas públicas de Ribeirão Preto (SP), em parceria com universidades, e também no estado de Sergipe. A equipe está desenvolvendo instrumentos de avaliação para medir se a HQ cumpre seus objetivos: despertar cidadania científica, ensinar conteúdos de ecologia e estimular atitudes pró-meio ambiente.
“Independentemente da avaliação formal, a HQ já é um recurso didático totalmente interdisciplinar. Pode ser usada em biologia, mas também em geografia, português ou outras áreas”, destaca Blande.“Foi um processo lindo. Nossa ideia era mostrar que a ciência não é inalcançável. Pode ser feita por todos nós”, conclui.
Ficha Técnica – HQ Guardiões dos Polinizadores
- Coordenação: Blandina Felipe Viana e Roberta Smania-Marques.
- Roteiro: Wendell Felipe Sales Gaudêncio.
- Edição e Arte: Felipe de Oliveira.
- Auxiliar de Edição e Cores: Laura Lize Verssaca de Oliveira e Márcio André Silva dos Santos.
- Revisão do Conteúdo: Blandina Felipe Viana (UFBA), Charbel El-Hani (UFBA), Goia Lyra (UFBA), Paolla Almeida (UFBA), Roberta Smania-Marques (UEPB) e Fabiana Oliveira da Silva (UFS).
- Apoio Financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.