Quando o Território gera Dado: Como a Geração Cidadã de Dados amplia a produção do conhecimento no Brasil
Iniciativas de comunidades periféricas utilizam metodologias de dados para mapear lacunas do Estado, pautar políticas públicas e propor formas complementares de produção de conhecimento
Curitiba, 25 de setembro de 2026, por Joana Giacomassa, com apoio de Karen Sailer, Luan Alves e Pedro Curcel
O censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou mais de 16 milhões de pessoas vivendo em mais de 12 mil favelas e comunidades urbanas no país. No censo de 2010, o mesmo órgão contabilizava apenas 11,4 milhões de moradores e pouco mais de seis mil favelas. O salto de quase 100% no número de territórios mapeados não significa, necessariamente, que esses territórios não existiam até então. Mas pode nos ajudar a compreender um problema de invisibilização histórica.
O IBGE admitiu que algo simples como a falta de logradouros — o nome oficial de registro das ruas — dificulta o recenseamento. Sem um nome de rua e número de casa, essas pessoas não existiam para o Estado. Em 2024 o órgão substituiu oficialmente a antiga denominação “Aglomerados Subnormais” pelo termo “Favelas e Comunidades Urbanas”. A alteração foi fruto de muitos anos de pressão de movimentos sociais e institutos de pesquisa, migrando a visão do termo focada na ocupação irregular e na ilegalidade para o reconhecimento do direito à cidade e da autoprodução de moradia.
Essa é apenas uma forma de ilustrar o apagão histórico de informações sobre a periferia brasileira. Diante da lacuna do Estado, a chamada Geração Cidadã de Dados (GCD) busca dar autonomia aos moradores de favelas brasileiras para a produção de dados sobre seus territórios e participação política na formulação de políticas públicas.
O dado como denúncia
- Maria Ribeiro e Inna Meireles seguram o troféu do Prêmio Periferia Viva durante a cerimônia de premiação do CocôZap no Palácio do Planalto, em Brasília. Foto: Larissa Lopes / data_labe
- Embaixadoras do CocôZap: Elenice, Ruany, Juliana e Gabriela. Foto: Maria Ribeiro / data_labe
O saneamento básico — ou a falta dele — em favelas e comunidades urbanas brasileiras tem impacto direto sobre o meio ambiente urbano e sobre a desigualdade territorial nas cidades. Sem coleta e tratamento adequados, o esgoto é lançado em córregos, rios e no solo. Não é preciso muito para entender o impacto que isso traz no dia a dia e na saúde dos moradores, sem considerar a contaminação dos recursos hídricos e a ampliação dos efeitos de enchentes e impactos das crises climáticas em áreas já marcadas por vulnerabilidade socioambiental. O termo saneamento básico abrange o conjunto essencial de serviços, infraestruturas e instalações necessárias para promover a saúde pública, proteger o meio ambiente e assegurar a qualidade de vida da população.
Tomemos o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, como exemplo. Para transformar a vivência em diagnóstico documentado, o laboratório de dados e narrativas data_labe, fundado em 2016, desenvolveu o CocôZap — uma ferramenta de coleta e tratamento de dados a partir do envio de fotos e localizações de problemas de saneamento via WhatsApp com grande adesão da comunidade. Os dados gerados ao longo dos anos, quando comparados e somados com aqueles disponibilizados pelo último censo à época, revelam os pontos cegos da atuação estatal. Segundo o documento Cocôzap: um guia sobre geração cidadã de dados, “A comparação torna mais evidente como processos de geração cidadã de dados possibilitam diagnósticos mais próximos à realidade cotidiana de territórios de favelas e comunidades, como a Maré”. Uma recente pesquisa do data_labe estimou que metade da população do conjunto de favelas da Maré não tem acesso à coleta de lixo.

Essa discrepância fica visível no mapeamento do Guia CocôZap: enquanto o Censo 2010 do IBGE registrava uma cobertura homogênea nos setores censitários da Maré, os pontos em verde — mapeados diretamente pelos moradores — revelam dezenas de focos de esgoto a céu aberto ignorados pela contagem oficial.
Polinho Mota, Diretor Executivo no data_labe e doutor em Epidemiologia e Ciência de Dados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), compartilhou um pouco de sua trajetória, sua pesquisa e seu trabalho em entrevista ao INCC. Em sua tese, Polinho investiga as razões pelas quais as pessoas passam a produzir a GCD: “uma delas é a ausência do dado público. Se não tem dado, você precisa criar. Outra razão é justamente a falta de qualidade dos dados produzidos ou a sua capilaridade, a microterritorialização desse dado”.
O pesquisador complementa ainda que, diante das boas práticas instituídas pela GCD, existe uma crítica sobre os dados produzidos pela pesquisa acadêmica que, “na maioria das vezes, não retorna ao território”, além da “falta de protagonismo das pessoas diretamente envolvidas naquele problema que pautou o desenvolvimento de determinada pesquisa científica” — ou seja, os cidadãos.
A discussão sobre o extrativismo de dados e falta de agência dos cidadãos (não só moradores de favelas, mas populações tradicionais, povos indígenas e a comunidade não acadêmica, em geral) em pesquisas científicas foi abordada por pesquisadores do INCC no II EBCC. A população foi e continua sendo objeto de pesquisa, e não sujeito. A GCD propõe alterar essa dinâmica ao colocar lideranças e moradores na formulação das perguntas, na gestão das informações geradas e na articulação com o poder público.
A Geração Cidadã de Dados (GCD) e a Ciência Cidadã
A Ciência Cidadã, na definição consolidada pela comunidade científica e adotada por órgãos de pesquisa, refere-se ao envolvimento do público em geral em etapas de investigações científicas. Nela, o cidadão participa em diferentes graus — desde a coleta pontual de dados ambientais até a construção conjunta de projetos de pesquisa. Para saber mais, acesse o Guia Brasileiro de Ciência Cidadã.
Já na Geração Cidadã de Dados (GCD), a premissa de atuação é a participação comunitária integral. Em verbete publicado no Dicionário de Favelas Marielle Franco, a GCD consiste no processo em que indivíduos ou suas organizações produzem dados de forma ativa, coletiva e consciente com o objetivo de monitorar direitos e reivindicar intervenções do Estado nos territórios onde vivem. Pode-se dizer, então, que a GCD é diferente das demais produções de dados em três níveis: quem faz (autoria), como faz (forma) e para o que faz (finalidade).
Conforme explica Polinho, enquanto a ciência cidadã visa prioritariamente a democratização do conhecimento científico e a popularização da ciência, a GCD surge das urgências sociais e tem como objetivo direto o impacto público e a garantia de direitos. “Tenho teorizado na minha tese de doutorado justamente isso: enquanto a ciência cidadã permite diferentes níveis de participação, na geração cidadã de dados a participação do cidadão do início ao fim é prerrogativa“, afirmou o pesquisador.
O epidemiologista destacou que essa diferença não opõe as duas abordagens. “Geração cidadã de dados é ciência, e ela está contida no campo da ciência cidadã. São forças complementares”, declarou. Compreende-se que a Ciência Cidadã e a GCD são metodologias distintas e somatórias, ambas válidas para a democratização do conhecimento, a justiça social e o fortalecimento do ecossistema científico nacional.
Da universidade de volta ao território
Polinho sugere, ainda, que o surgimento e o fortalecimento da GCD no país estão associados à entrada de jovens periféricos na pós-graduação por meio das políticas de ações afirmativas e cotas. Ele exemplificou essa dinâmica a partir de sua própria trajetória: nascido em Manaus e graduado em Educação Física, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar o mestrado em Ciência de Dados e o doutorado em Epidemiologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante seu mestrado, analisava grandes bases populacionais de saúde sem contato direto com as pessoas representadas por aqueles números: “Trabalhar na análise de dados longe dessas populações era muito estranho para mim por ter vindo de periferia. Era como se eu estivesse fazendo um trabalho frio”.
Ao dominar ferramentas metodológicas formais (como linguagens de programação), os pesquisadores oriundos das periferias passam a conectar esse conhecimento técnico a uma prática histórica dos territórios: o associativismo comunitário. Para o pesquisador, na luta por direitos, a presença das estatísticas altera a margem de negociação com a gestão pública: “quando você adiciona a camada do dado, você ganha um pouco mais de legitimidade e de ferramentas para sentar com o ator público ou político para negociar“.
Comunicação e Acessibilidade da Informação
Outro ponto debatido em entrevista com o pesquisador diz respeito à forma de comunicar os resultados das pesquisas. Na avaliação do epidemiologista, a publicação de artigos acadêmicos atende a exigências formais do sistema universitário, mas a GCD exige que os dados gerados sejam compreendidos diretamente pelas comunidades afetadas.
Essa busca por acessibilidade guiou a reportagem Violência Mental, produzida pelo data_labe, que cruzou estatísticas de violência armada com o aumento de internações por transtornos psiquiátricos nas periferias. Embora a equipe técnica precisasse aplicar cálculos estatísticos complexos para calibrar as variações dos dados, o material divulgado nas redes sociais priorizou mapas e gráficos diretos.
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O foco não era expor fórmulas matemáticas, mas explicitar o impacto humano: mostrar como o trauma da violência adoece a saúde mental do território: “O público não precisava saber da transformação logarítmica; o público precisava entender a relação de causa e efeito que foi identificada. Se a motivação é promover impacto público, ser compreendido é essencial“.
Essa abordagem motivou o data_labe a produzir materiais pedagógicos de acesso aberto, como o Guia Dados sem Caô (disponível também em cartilha interativa), focado em ensinar noções de análise e visualização de dados em linguagem R para comunicadores, e o Guia do Cocôzap, citado anteriormente, voltado à estruturação e geolocalização de dados abertos no território.
Mapeamento e Articulação da Rede GCD

O ativista Rene Silva compartilha a experiência do Observatório do Calor no Complexo do Alemão durante painel promovido pelo data_labe sobre Geração Cidadã de Dados e soluções climáticas na COP 30. Foto: Renan Souza / data_labe
A consolidação dessa metodologia levou à fundação, em 2023, da Rede Geração Cidadã de Dados (Rede GCD), estimulada pelo data_labe e pela Casa Fluminense. A coordenação operativa da rede conta atualmente com o Instituto Decodifica (antigo LabJaca), o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Observatório de Favelas e o Instituto Fogo Cruzado.
Segundo mapeamento e manifesto da Rede, existem 92 organizações e coletivos no Brasil que se identificam como produtores de dados cidadãos sobre temas como saneamento, segurança pública e racismo ambiental. Essa diversidade metodológica reflete-se em iniciativas em diferentes frentes de atuação: o Retratos das Enchentes, realizado pelo Instituto Decodifica, que mapeia os impactos da emergência climática e do racismo ambiental nas periferias; o monitoramento participativo de violência armada em vários municípios brasileiros conduzido pelo Instituto Fogo Cruzado; a produção do Mapa da Desigualdade e o controle social do orçamento público realizados pela Casa Fluminense; além de formações continuadas, tocadas pelo próprio data_labe para capacitar comunicadores populares no uso da estatística como ferramenta de reivindicação política.

Polinho Mota (data_labe) em painel do IBGE sobre a nova nomenclatura do Censo. Foto: IBGE / RioOnWatch
De acordo com Polinho, essa articulação em rede legitimou a presença das favelas nos espaços formais de tomada de decisão. As organizações conquistaram assento no diálogo técnico do IBGE para o mapeamento do Censo em Favelas e Comunidades Urbanas e firmaram interlocução continuada com instâncias do Governo Federal, a exemplo da Secretaria Nacional de Periferias. Além disso, a Rede GCD levou suas pautas sobre mitigação de desastres e soberania de dados para fóruns globais de transição climática, com destaque para iniciativas como o Retratos das Enchentes apresentado em painéis da COP e do G20.
Para o INCC, o acompanhamento da Geração Cidadã de Dados demonstra como a integração entre o conhecimento acadêmico e as iniciativas comunitárias contribui para aprimorar diagnósticos territoriais, promover a cidadania e subsidiar políticas públicas baseadas em evidências no Brasil. O que é especialmente importante em um cenário revelado pela Percepção pública da C&T no Brasil 2023, na qual mais de 82% dos brasileiros não conseguem citar o nome de nenhuma instituição de pesquisa do país — sinalizando um grave afastamento entre a produção acadêmica e o cotidiano popular. O uso da GCD não contribui apenas para a criação de políticas públicas mais efetivas e na redução de desigualdades, mas também para o fortalecimento da cultura científica e da democracia.
Para conhecer mais sobre as metodologias da GCD, acesse o site do data_labe e explore as pesquisas, relatórios e formações. Conheça também a Rede Geração Cidadã de Dados e os projetos que a integram, o Instituto Decodifica, a Casa Fluminense, o Instituto Fogo Cruzado, o Observatório de Favelas e o Dicionário de Favelas Marielle Franco.

