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O exército de formiguinhas: conheça alguns dos cientistas cidadãos por trás de grandes registros de biodiversidade no Brasil

No terceiro episódio do podcast Ciência das Gentes, dois observadores voluntários contam como seus registros ajudaram a mapear fenômenos raros e a proteger espécies ameaçadas

Curitiba, 22 de junho de 2026, por Joana Giacomassa com apoio de Karen Sailer, Pedro Curcel e Luan Alves

A ciência cidadã parte do princípio de que todas as pessoas podem produzir conhecimento, baseando-se na cocriação e na interdisciplinaridade. É desse encontro entre saberes acadêmicos e comunitários que nasce o “Ciência das Gentes”, podcast do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC), disponível no YouTube, Spotify e Deezer.

O terceiro episódio do podcast, “Ciência em um clique: a experiência de ser um cientista cidadão”, já está no ar e dá voz ao outro lado da pesquisa: os cidadãos cientistas voluntários. A conversa conta com o biólogo, professor da rede estadual e pesquisador colaborador do Museu Botânico do Jardim Botânico de Curitiba, Adolf Carl Krüger (PR); e com o bacharel em Direito e guia de observação de aves, idealizador da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Reserva Kaetés, Gustavo Magnago (ES). Eles revelam como a paixão pela natureza e a fotografia como hobby os ajudou a preencher lacunas de conhecimento e a proteger o meio ambiente.

Mistérios desvendados no inverno curitibano

Na imagem, galhos completamente cobertos por aglomeração da borboleta Epityches eupompe

Aglomeração da borboleta Epityches eupompe — Foto: Adolf Carl Krüger

Para Adolf, a atuação como cientista cidadão ganhou força em 2019, nos encontros de observadores de borboletas em Curitiba. Contudo, uma de suas maiores contribuições científicas começou bem antes, em 2011, de forma totalmente despretensiosa. Durante uma trilha, Adolf se deparou com uma árvore coberta por mais de 10 mil borboletas de uma única espécie, Epityches eupompe, conhecida popularmente como borboleta asas-de-vidro. 

Sem entender a raridade do fenômeno, filmou a cena de forma precária com uma câmera de bolso. Só em 2024, ao notar o padrão novamente na mesma região, ele compartilhou o caso com a comunidade. Por ser colaborador do Museu Botânico Municipal Gerdt Hatschbach, que funciona nas dependências do Jardim Botânico de Curitiba, Adolf informou a bióloga Maristela Zamoner, que é coordenadora de projetos do Jardim Botânico e especialista no estudo destes animais. Juntos, voltaram ao local para fazer novos registros.

O biólogo então descobriu que o primeiro relato científico desse tipo de agregação no Brasil havia sido publicado apenas em 2017. Aglomerações de borboletas desta espécie só foram identificadas em mais três lugares, em Piraquara, São Paulo e Santa Catarina.

“Como é que ninguém viu milhares de borboletas no meio de uma trilha? O hábito, o costume de estar numa plataforma de registrar, de saber que aquilo vai ser compartilhado, abre um pouco os olhos da gente”, reflete Adolf sobre como a prática da ciência cidadã mudou sua percepção.

Adolf e Maristela na trilha do Anhangava, no Parque Estadual Serra da Baitaca, para observar o fenômeno das borboletas asa-de-vidro, em julho de 2025 — Foto: José Fernando Ogura

Sobre interesses específicos na hora de fazer os registros, Adolf comentou que passou a registrar sistematicamente serpentes e outros animais atropelados nos arredores dos parques onde andava de bicicleta em Curitiba. Apesar de questionado por registrar animais mortos, o banco de dados gerado foi compartilhado com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), resultando no projeto “Olha o Bicho”, focado no monitoramento de fauna atropelada. No podcast, o professor revela outras surpresas de suas andanças, incluindo um besouro amarelo de apenas 2 cm que gerou a única foto do inseto vivo na natureza no mundo.

Da lente da câmera à preservação de espécies no Espírito Santo

Captura de tela realizada na plataforma WikiAves do primeiro registro do falcão-de-peito-laranja no estado do Espírito Santo, feito por Gustavo

O contato de Gustavo Magnago com a ciência cidadã também começou de forma espontânea. Nos anos 2000, o naturalista fotografou um falcão-de-peito-laranja e descobriu que o clique era o primeiro registro da espécie, chamada Falco deiroleucus, no Espírito Santo, o que rendeu uma publicação científica.

Anos depois, em 2022, ao carregar algumas fotos de insetos na plataforma iNaturalist, ele registrou uma borboleta da espécie Petrocerus catienaPesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) viram o registro, identificaram a espécie e constataram que se tratava do primeiro registro fora do estado do Rio de Janeiro, expandindo a distribuição geográfica conhecida da espécie em mais de 300 quilômetros. O cientista cidadão virou coautor no artigo publicado na revista “Journal Insect Biodivesity” sobre a espécie. Gustavo é responsável, hoje, por mais de 300 primeiros registros de espécies no Espírito Santo na plataforma WikiAves.

Registro da borboleta Petrocerus catiena em dezembro de 2022, a 1100 metros de altitude, na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Reserva Kaetés — Foto: Gustavo Magnago

O maior exemplo de impacto comunitário de Gustavo, no entanto, não está relacionado diretamente aos registros em plataformas como iNaturalist e WikiAves. Em nossa conversa, Gustavo contou sobre seu papel de liderança na conservação da espécie Nemosia rourei, conhecida como saíra-apunhalada, ave criticamente ameaçada e endêmica do Espírito Santo. Quando restavam apenas cinco indivíduos mapeados na natureza, ele liderou uma mobilização institucional que, a longo prazo, ajudou a elevar a população conhecida para 15 indivíduos. 

“Existe uma lacuna de conhecimento sobre algumas espécies que o cientista cidadão pode contribuir muito, desde que ele não se acanhe. Um dia me procuraram, sem saber que eu não sou biólogo nem nada, para montar um programa de conservação da espécie. Eu falei: ‘Olha, eu não sou biólogo, eu não tenho um CNPJ, mas eu sei como posso ajudar com isso’. […] Compramos cinco fazendas ali na região, olha só que legal, tudo começando como um cientista cidadão e hoje tá lá, a área da espécie protegida”, relembra Gustavo.  

Ave da espécie Nemosia rourei, conhecida como saíra-apunhalada — Foto: Gustavo Magnago

Para entender todos os detalhes de como esses registros foram feitos, os bastidores da fotografia de vida selvagem, impressões sobre as plataformas de registros e conselhos práticos dos convidados para quem quer começar a fotografar a biodiversidade local, não deixe de ouvir o episódio completo. O consenso entre os convidados é o de que não precisa de muito para começar, como defende Adolf: 

“Não precisa esperar fazer uma grande expedição, algum lugar assim muito remoto, alguma coisa assim fora do normal para começar a registrar […] Não, é no quintal de casa, é no seu bairro, nas praças que você vai ali.”

É justamente esse acúmulo de olhares cotidianos que gera impacto em larga escala, como descreve Gustavo: 

“Uma hora você vai ter uma surpresa agradável, de alguém te falar: ‘Olha, isso aí você, sem saber, fez uma descoberta ou você tá me ajudando’”, incentiva Gustavo. “É um trabalho de formiguinha, cada um no seu cantinho ali, a gente vai mobilizando um exército bem bacana de cientistas cidadãos.”

Como ouvir

O episódio já está disponível gratuitamente nas principais plataformas digitais:

Sobre o projeto: O podcast é uma realização do INCC, executado pelo IBICT, com parceria da RBCC e apoio do CNPq e da Capes. Coordenação geral de Sarita Albagli e vice-coordenação de Natalia Pirani Ghilardi-Lopes. Expediente: Karen Sailer, Joana Giacomassa, Luan Alves e Pedro Curcel. Saiba mais em incc.ibict.br.

 

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