Menu

II Encontro Brasileiro de Ciência Cidadã reúne recorde de público em Curitiba e lança Guia inédito

Com quase 500 inscritos, o II EBCC reuniu pesquisadores em Curitiba para debater os desafios, os avanços e o futuro da ciência cidadã no Brasil

Curitiba, 18 de setembro de 2026, por Joana Giacomassa

Apesar do grande volume de chuva que atingiu a capital paranaense na última semana, o Campus Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi palco de muitas trocas, debates e alinhamentos para a ciência cidadã brasileira durante a realização do II Encontro Brasileiro de Ciência Cidadã (II EBCC).

O evento foi organizado pela Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR), a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), o NAPI Paraná Faz Ciência, a Fundação Araucária, o INCT em Ciência Cidadã (INCC) e o Governo do Estado do Paraná e contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Durante os dias 9, 10 e 11 de setembro, o encontro reuniu pesquisadores, educadores, gestores públicos, estudantes, cientistas cidadãos e lideranças comunitárias sob o tema “A Ciência Cidadã que temos: desafios e avanços”.

Os avanços em números

O avanço e a maturidade da área no país ganharam contornos expressivos na comparação com a edição inaugural do evento, realizada em 2024 em São Bernardo do Campo (SP). Enquanto a primeira edição reuniu 155 inscritos, o II EBCC registrou um crescimento de mais de 200%, alcançando a marca de quase 500 participantes e autores inscritos. Os números revelam o esforço coletivo e o interesse crescente da comunidade.

Segundo a comissão organizadora, cerca de 215 pessoas circularam diariamente pelos cinco setores do Campus Politécnico que sediaram o evento, alcançando 80% dos credenciados. Foram 186 trabalhos apresentados e quase 100 avaliadores integraram a comissão científica prévia. Na parte prática da programação, ocorreram 22 processos formativos e sessões interativas, além de 4 painéis principais. Mais de 50 pessoas atuaram na infraestrutura, comunicação, acessibilidade, credenciamento e suporte.

A fotografia registra uma mesa de honra durante a abertura de um evento institucional, com sete pessoas sentadas lado a lado em um auditório. Ao centro e à direita, um dos integrantes fala ao microfone diante das bandeiras do Estado do Paraná, do Brasil e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). À frente da mesa, um painel em tons de azul e verde exibe a sigla "EBCC" e as marcas de diversas entidades apoiadoras e organizadoras, como RBCC, UFPR, UTFPR, UNILA, Paraná Faz Ciência, Fundação Araucária e CNPq.

Mesa de abertura do II EBCC

A mesa de abertura definiu o tom colaborativo e reflexivo da programação. Dr. Rodrigo Arantes Reis, professor da UFPR e coordenador do NAPI Paraná Faz Ciência e do Laboratório Móvel de Educação Científica, reafirmou o compromisso da universidade pública com a ciência aberta e acessível. A pesquisadora e coordenadora do INCC, Dra. Sarita Albagli, ressaltou a necessidade de colocar todos os atores em diálogo contínuo, com especial proteção aos grupos historicamente vulnerabilizados. A professora Dra. da UFABC, vice-coordenadora do INCC e membro co-fundadora da RBCC, Natalia Pirani Ghilardi-Lopes, defendeu a horizontalidade epistemológica, lembrando que “ninguém sabe mais do que ninguém e todos devem estar livres para que o evento seja um espaço de aprendizado e troca constante”.

O encontro contou também com a presença de palestrantes internacionais que trouxeram a perspectiva de fora. A professora brasileira e radicada nos EUA, Dra. Maria Carmen Lemos provocou o auditório sobre a utilidade real da produção acadêmica, introduzindo a reflexão sobre o conhecimento acionável para a sustentabilidade — aquele criado especificamente para informar, influenciar e orientar a tomada de decisões no território. A pesquisadora australiana Dra. Bridie Schultz, compartilhou experiências da ciência cidadã como transformadora do ambiente escolar em um local de pesquisa real e destacou a importância da exploração de projetos e ferramentas de monitoramento ambiental.

Alguns dos desafios

Conforme o próprio tema do evento sugere, o campo ainda tem desafios a enfrentar e estes foram tópicos das discussões. Entre eles, está o de como tornar o conhecimento verdadeiramente acessível e útil para a vida das pessoas, garantindo que as pesquisas se transformem em melhorias concretas para as comunidades e em políticas públicas de fato. Para isso, é preciso garantir fontes de financiamento contínuas para os projetos e compreender a transversalidade dessa área. O modo tradicional de produção de conhecimento acadêmico também foi mencionado: em vez de apenas coletar informações, o objetivo é criar espaços de aprendizado em conjunto, onde cientistas, professores e moradores locais troquem saberes e construam ciência juntos.

O INCC no II EBCC

Uma foto de grupo colorida com cerca de vinte e cinco pessoas, todos membros do INCC, reunidos para uma foto oficial no II EBCC. Eles estão dispostos em três fileiras, sorrindo para a câmera em um ambiente de conferência bem iluminado, na frente de um grande banner que exibe o logo do evento e gráficos estilizados de mapas e conexões em tons de azul, verde e laranja. A maioria dos membros usa crachás no pescoço. O grupo é diverso e está vestido com roupas casuais ou de trabalho, incluindo jaquetas e cachecóis, refletindo o clima do evento.

Membros do INCC reunidos no II Encontro Brasileiro de Ciência Cidadã

Além de sua participação na organização do Encontro, o INCC aproveitou a ocasião para uma reunião presencial do Comitê Gestor, realizada na véspera da abertura do evento. O tema da reunião foram as ações realizadas em 2026, as produções e trabalhos apresentados, os desafios encontrados no caminho e as proposições para superá-los. Somado a isso, foram discutidas as atividades planejadas por cada uma das linhas para os anos seguintes.

Reunião presencial do Comitê Gestor do INCC

Ao longo da programação do EBCC, o INCC teve uma expressiva participação científica, somando cerca de 40 participações diretas entre conferências, coordenações de mesas, processos formativos e apresentações de trabalhos.

A presença do INCC refletiu as discussões teóricas, pedagógicas, práticas e éticas que permeiam as Linhas de Pesquisa do Instituto. Entre alguns dos temas de trabalhos estão o desenvolvimento colaborativo do Curso de Introdução à Ciência Cidadã (desenvolvido pela Linha 4 – Formação e Educação), a aplicação de Sequências de Ensino-Aprendizagem (SEACC) focadas em biodiversidade, a cultura oceânica e combate ao desperdício de alimentos. Os trabalhos apresentados abordaram ainda a formação de professores, a autorregulação da aprendizagem, o impacto da ciência cidadã na pós-graduação stricto sensu e o engajamento socioambiental em unidades de conservação.

No campo conceitual, o INCC liderou debates epistemológicos da área e promoveu, também, processos formativos sobre governança e boas práticas em dados, instrumentos jurídicos e infraestruturas abertas, além de oficinas de comunicação dialógica e reflexões sobre a articulação entre saberes tradicionais, governança pública e justiça socioambiental.

Confira um pouco da cobertura do INCC no II EBCC nas nossas redes sociais:

Por uma Ciência Cidadã Transformadora

Encerrando a programação de painéis na manhã de sexta-feira (11), a discussão dos membros do INCC, mediada pela professora da UFBA e co-fundadora da RBCC, Dra. Blandina Felipe Viana, colocou no centro do debate a urgência da justiça socioambiental e da soberania digital no contexto das mudanças climáticas.

Sarita Albagli provocou questionamentos sobre o modelo de produção de dados: “De que tipos de conhecimento queremos e precisamos? Quem deles se beneficia ou se prejudica? Existe autonomia das comunidades ou apenas extrativismo de dados?”. A coordenadora do INCC enfatizou que abrir dados e criar repositórios não garante democratização se o acesso, a interpretação e a reutilização continuarem restritos, defendendo o reconhecimento da ciência cidadã como produtora legítima de conhecimento relevante.

O pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta a Desastres (Cemanden) e co-coordenador da Linha 1 – Coprodução do conhecimento e Engajamento Social do INCC, Dr. Allan Yu Iwama apresentou a experiência e os avanços do Programa Cemaden Educação, ressaltando que a ciência precisa se conectar diretamente com as comunidades, as defesas civis e políticas públicas locais, em especial na prevenção de riscos de desastres. Por sua vez, Natalia Pirani Ghilardi-Lopes defendeu que a formação conceitual é pré-requisito para a transformação, ressaltando que “não existe ciência cidadã certa ou errada, mas sim o que é adequado para cada contexto específico”. A pesquisadora sugeriu ainda “inverter a lógica de apenas transformar cientistas cidadãos para transformar todos os envolvidos — incluindo acadêmicos, gestores e as próprias instituições científico-universitárias”.

O futuro

Mais do que celebrar o expressivo saldo de público e submissões do Encontro, os atores envolvidos nas instituições organizadoras apontam para um futuro em que a ciência cidadã possa se consolidar como uma área cada vez mais integrada, diversa e de impacto social. Um dos marcos mais aguardados dessa consolidação foi o lançamento físico do Guia Brasileiro de Ciência Cidadã, desenvolvido pelo GT3 – Capacitação e Produção de Materiais Educativos da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC), em parceria com o INCC. Fruto de um esforço coletivo de cocriação que envolveu diversos atores, instituições e comunidades ao longo de anos de trabalho, o Guia sintetiza orientações, conceitos, boas práticas e salvaguardas éticas para qualificar e impulsionar a prática científica participativa no país. Ao apresentarem a publicação, os autores reforçaram o caráter contínuo e comunitário da iniciativa, deixando um convite aberto para a rede: “Este é apenas o primeiro; vamos construir o próximo juntos?”. Esse marco materializa o amadurecimento da área citado pelas lideranças.

Para Sarita, o encontro “foi uma oportunidade de divulgarmos nossos resultados e produtos, mas também de ouvir, trocar com outras experiências e sentir os caminhos futuros da nossa comunidade”. Natália reforçou o olhar para o futuro ao destacar que “o evento traz questionamentos e a vontade de ampliar horizontes”, sendo um “espaço importante para a troca mútua entre quem traz uma longa bagagem e quem está começando a construir seu caminho na ciência cidadã”.

O engajamento contínuo do público, mesmo diante dos desafios do clima, foi celebrado por Dra Tamara Dias Domiciano, organizadora do evento e Pós-doutoranda do NAPI Paraná Faz Ciência, que classificou como “extremamente gratificante” ver 80% dos credenciados presentes todos os dias em auditórios cheios. Olhando para os próximos passos da área, Rodrigo Reis concluiu com entusiasmo: “Quem sai de Curitiba hoje sai de coração quentinho e energizado. A área vem se constituindo com diversos atores, dentro e fora da academia. Esperamos que os frutos deste encontro possam frutificar em produções, ações e políticas públicas relacionadas à ciência cidadã no Brasil”.

As fotos da cobertura do INCC no II EBCC estão disponíveis no Flickr oficial do Instituto. Os anais do evento ainda não estão disponíveis, mas você pode acompanhar através do site oficial.

Compartilhe: