Dicas do INCC: Episódio especial reúne produções científicas sob perspectivas contra-hegemônicas
Nova edição da série “Dicas do INCC” reúne artigos, livros e projetos que desafiam o conhecimento dominante e propõem uma ciência feita “a partir de baixo”, com foco em decolonialidade e engajamento comunitário
Curitiba, 12 de maio de 2026, por Joana Giacomassa, com apoio de Karen Sailer, Luan Alves e Pedro Curcel
Nesta terça-feira (12), o INCC divulgou mais um episódio da série “Dicas do INCC”. Esta edição tem uma proposta diferente, a de trazer indicações de conteúdos científicos de perspectivas contra-hegemônicas. O material reúne leituras acadêmicas como artigos e capítulos de livros e indicações de projetos para acompanhar.
As dicas são de Pedro Bravo, Professor de Epistemologia e Filosofia da Ciência da UFABC, atualmente Cocoordenador da Linha 6 – Arcabouço Teórico-Conceitual do INCC; e Allan Yu Iwama, Engenheiro Ambiental, Mestre em Sensoriamento Remoto e Doutor em Ambiente e Sociedade, atual Cocoordenador da Linha 1 – Coprodução e Engajamento Social em Iniciativas de Ciência Cidadã do INCC.
Reunimos, a seguir, os links de acesso para os materiais indicados:
Dica 1: Uma epistemologia para a próxima revolução.
Neste artigo, a filósofa latino-americana Linda Martín Alcoff argumenta que qualquer projeto decolonial precisa não apenas criticar o conhecimento dominante, mas reconstruir os critérios de quem tem autoridade para produzir saber.
ALCOFF, Linda Martín. Uma epistemologia para a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, Brasília, v. 31, n. 1, p. 129–143, jan./abr. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/xRK6tzb4wHxCHfShs5DhsHm/?format=html&lang=pt
Dica 2: Observatório do Mangue.
O Observatório do Mangue é um projeto socioambiental e tem o intuito de efetivar o sistema de governança ambiental de unidades de conservação que abrigam o sistema socioecológico do manguezal e seus maretórios através do engajamento comunitário criando o grupo Pesquisadores do Mangue.
Conheça através de observatoriodomangue.com ou @observatoriodomangue
Dica 3: Objetividade mais forte para ciências exercidas a partir de baixo.
Sandra Harding propõe que a ciência produzida a partir das margens pode gerar uma objetividade mais robusta neste livro, ao revelar pontos cegos invisíveis às perspectivas dominantes.
HARDING, Sandra. Objetividade mais forte para ciências exercidas a partir de baixo. Em Construção: arquivos de epistemologia histórica e estudos de ciência, v. 5, n. 5, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.12957/emconstrucao.2019.41257
Dica 4: What happens to citizen science projects after scientists leave?
O texto de Sebastián Ureta, coordenador do Núcleo Milenio sobre Tecnociencia Ciudadana para la Transformación Socioambiental (CITEC) – @nucleo_citec, critica a falta de sustentabilidade em projetos de ciência cidadã após a saída de pesquisadores, propondo uma abordagem mais ética e centrada na autonomia comunitária. Publicado pela Prince Claus Chair em 2023, o artigo questiona o impacto real dessas iniciativas no Sul Global.
URETA, Sebastián. What happens to citizen science projects after scientists leave?: a case for a more critical citizen science approach. [S. l.]: Prince Claus Chair, 3 out. 2023. Disponível em: https://princeclauschair.nl/2023/10/what-happens-to-citizen-science-projects-after-scientists-leave/.
Dica 5: Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser.
Neste livro, Sueli Carneiro mobiliza o conceito de epistemicídio para mostrar como o racismo no Brasil opera não apenas como exclusão social, mas como a destruição sistemática de formas de conhecimento.
CARNEIRO, Sueli. Epistemicídio. In: ______. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023. cap. 3.
Dica 6: Rede Marangatu.
Financiada pelo CNPq, pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBIO), a Rede Marangatu é uma rede de ciência cidadã voltada para a governança territorial e a promoção de políticas de conservação e valorização da sociobiodiversidade costeira marinha do Brasil. “Marangatu” tem origem indígena Guarani, além de representar uma rede colaborativa e interconectada, pode ser interpretada como “mãe d’água” ou “seres do mar”. A Rede celebra a conexão intrínseca entre natureza e cultura, reconhecendo nessa abordagem um significado transformador para as comunidades costeiras e marinhas, em especial para os Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs).
Acesse em: https://collectory.sibbr.gov.br/collectory/public/show/dp111 ou @redemarangatu
Dica 7: The North ‘Helicoptering’ into the South: A Meta-Analysis of Parachute Science in Ecological Field Studies
Pesquisadores do Norte Global frequentemente estudam o Sul Global sem envolver cientistas locais — este artigo mapeia empiricamente essa prática na ecologia de campo e suas consequências para a produção do conhecimento.
ECONOMOU-GARCIA, Alexandros. The North ‘Helicoptering’ into the South: A Meta-Analysis of Parachute Science in Ecological Field Studies. Student Publications, Gettysburg College, 2022. Disponível em: https://cupola.gettysburg.edu/student_scholarship/1020
Dica 8: Projeto Centinelas comunitários.
O projeto chileno Centinelas Comunitarios promove o monitoramento socioambiental participativo, capacitando habitantes para protegerem seus próprios territórios por meio do saber local. A iniciativa utiliza a ciência cidadã e a cartografia social como ferramentas de resistência e autonomia na defesa do meio ambiente.
Acesse em: https://www.centinelascomunitarios.cl/ ou @antropologiadelaconservacion
Dica 9: Science must overcome its racist legacy: Nature’s guest editors speak.
Editores convidados da revista Nature refletem sobre como o racismo estrutural moldou práticas e instituições científicas — uma entrada direta para pensar a reforma da ciência a partir de dentro.
NOBLES, Melissa et al. Science must overcome its racist legacy: Nature’s guest editors speak. Nature, v. 606, n. 7913, p. 225–227, 8 jun. 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-022-01527-z
Dica 10: Integrating Citizen Science Observations in Climate Mapping: lessons from Costal-Zone Geovisualization in Chilean Patagonia and the Brazilian Southeast.
O segundo capítulo analisa o uso da ciência cidadã no mapeamento climático costeiro no Brasil e no Chile, destacando como a geovisualização pode integrar percepções locais a dados científicos. Os autores discutem os desafios e o potencial dessas ferramentas participativas para fortalecer a resiliência de comunidades diante das mudanças climáticas.
RANGEL, Bianca et al. Integrating Citizen Science Observations in Climate Mapping: lessons from Costal-Zone Geovisualization in Chilean Patagonia and the Brazilian Southeast. In: LAY, Sarah-Louise; MARSHALL, James (ed.). Citizen Science and the Climate Crisis. Calgary: University of Calgary Press, 2023. Cap. 2. Disponível em: https://ucp.manifoldapp.org/projects/9781773854083/resource/chapter-2-integrating-citizen-science-observations-in-climate-mapping-lessons-from-costal-zone-geovisualization-in-chilean-patagonia-and-the-brazilian-southeast.
Os demais episódios da série “Dicas do INCC”, você pode acessar através do Instagram: @inctcienciacidada.