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Conheça o Projeto Budiões: a iniciativa que une ciência e comunidade para proteger o litoral brasileiro

Com atuação em 12 estados, o projeto integra universidades públicas e o Programa Petrobras Socioambiental para monitorar os “jardineiros do mar” e promover o desenvolvimento sustentável em vilas de pescadores

Curitiba, 30 de abril de 2026, por Joana Giacomassa com apoio de Karen Sailer, Pedro Curcel e Luan Alves 

Considerado uma das espécies marinhas mais bonitas da fauna brasileira, o budião, ou peixe-papagaio, é mais do que um “rostinho bonito”. Ele desempenha um papel fundamental para a manutenção dos nossos recifes. Em um cenário de estresse climático e degradação marinha, esses peixes herbívoros, abundantes ao longo da costa brasileira, ocupam a função de “jardineiros”. De maneira simplificada, ao se alimentar das algas que cobrem os corais, os budiões garantem a resiliência e o crescimento saudável desses ecossistemas — que sustentam cerca de 25% de toda a biodiversidade dos oceanos.

Criado em 2019 para cobrir mais de 9.000 km de litoral, o Projeto Budiões conta com o patrocínio da Petrobras, via Programa Petrobras Socioambiental. Estruturado como uma rede multidisciplinar, ele integra o Instituto Nautilus a sete universidades públicas brasileiras (UFMA, UFSB, UFPE, UFES, UFF, UFRN e UESC). Sob a liderança científica da Profa. Dra. Fabiana C. Félix Hackradt (UFSB), a atuação abrange do Maranhão a Santa Catarina, unindo pesquisa de ponta, educação ambiental e políticas públicas.

“Se a gente não tem budião, a gente não tem saúde recifal”, nos conta Fabiana. Ele é uma peça-chave para mantermos a resiliência desses ambientes. 

O Projeto Budiões: da pesquisa científica ao balcão do pescador

Rede multidisciplinar: profissionais do Projeto Budiões e representantes da Petrobras Socioambiental em ação de campo para promover a conservação marinha. Foto: Divulgação Projeto Budiões

O objetivo do programa é elaborar uma base de dados que ajude no mapeamento e monitoramento da presença das espécies de budiões em vários locais do litoral brasileiro. Na pesquisa científica, o grupo realiza censos visuais subaquáticos e avalia a estrutura e conectividade genética das populações ao longo da costa, busca entender os padrões de ecologia trófica das espécies e avalia os padrões de movimentação e área de vida e a ocorrência e distribuição em ambientes profundos.

Além da pesquisa em si, o projeto atua em frentes que vão muito além do laboratório. Há também o envolvimento direto com os pescadores, através do monitoramento pesqueiro, educação ambiental e desenvolvimento de capacitações  para o turismo de base comunitária. O projeto busca identificar oportunidades em cada local e levar oportunidades econômicas às comunidades tradicionais que dependem da pesca dos budiões como sustento, de forma a minimizar o impacto da extração garantindo a renda e sustentabilidade para essas famílias. Fabiana explica: “A gente trabalha para que o pescador tenha outras fontes de renda. Queremos que o peixe valha mais vivo, no turismo, do que morto no prato”. 

Por meio dos cientistas cidadãos, Fabiana percebe dois tipos de contribuição: os das pessoas que ocasionalmente avistam os animais e aproveitam a oportunidade para enviar os registros; e os mergulhadores “engajados”, que “estão ali todos os dias e já sabem até onde os peixes moram”. Com este segundo grupo, Fabiana conta que o projeto oferece “cursos de capacitação e identificação das espécies, mediante interesse deles mesmos”.

A educação ambiental se estende através de ações desenvolvidas com base em um plano de educação ambiental construído para o projeto e direcionadas a dois segmentos: professores da educação básica e agentes de turismo, que serão treinados para atuarem como multiplicadores ambientais. As ações do projeto comportam também a divulgação científica na produção de conteúdo para redes sociais, participação em eventos e palestras, produção de materiais educativos e realização de oficinas temáticas, trazendo temas atuais sobre conservação e impactos dos mares e oceanos e das principais descobertas e ações do projeto. 

O Mistério dos Bicos em Fernando de Noronha

O jardineiro dos recifes: budião-azul (Scarus trispinosus), espécie endêmica do Brasil e considerada 'em perigo' de extinção, é o foco das ações de conservação do Projeto Budiões. Foto: Divulgação Projeto Budiões

O jardineiro dos recifes: budião-azul (Scarus trispinosus), espécie endêmica do Brasil e considerada ‘em perigo’ de extinção, é o foco das ações de conservação do Projeto Budiões. Foto: Divulgação Projeto Budiões

A colaboração entre cientistas e cidadãos não gera apenas números, mas descobertas que desafiam a biologia. Em Fernando de Noronha, os “olhos” dos guias e fotógrafos permitiram que a equipe de Fabiana notasse um fenômeno morfológico único, que ela descreve com detalhes:

“Noronha é um lugar muito especial. A gente começou a observar que os budiões tinham umas deformações no bico. A gente falava: ‘Gente, que coisa estranha’. E conversando com o pessoal da ilha, os mergulhadores que estão lá todo dia, eles diziam: ‘Ah, esse peixe aqui sempre foi assim’. E quando a gente foi olhar com calma, a gente percebeu que a dureza do substrato de Noronha — que é uma ilha vulcânica, com pedras muito duras — comparada com outros recifes de corais que são mais ‘macios’, está exigindo um esforço físico diferente desses animais para se alimentar. Então, o bico deles é mais ‘parrudo’, digamos assim, ele é mais forte e tem essas deformações que a gente não encontra em outros lugares.”

Essa descoberta reforça a fala de Fabiana sobre a escala que o cidadão traz para o projeto: “Essas pessoas estão no mar todos os dias. Eles são os nossos olhos. A gente não tem perna para estar em todos os lugares ao mesmo tempo, então a ciência cidadã é o que dá escala para o projeto.”

Pesquisador anota dados de avistamento durante mergulho técnico do Projeto Budiões. Foto: Divulgação Projeto Budiões

Pesquisador anota dados de avistamento durante mergulho técnico do Projeto Budiões. Foto: Divulgação Projeto Budiões

Conheça outras iniciativas de ciência cidadã na costa brasileira 

É nesta busca por dados e conexão com os cidadãos que o trabalho de Fabiana se conecta ao de Bianca Rangel, coordenadora do projeto Tubarões e Raias de Noronha e convidada do segundo episódio do podcast produzido pelo INCC, Ciência das Gentes. Para Bianca, em Noronha, a abordagem cidadã mudou o ritmo da conservação: “A gente não conseguiria fazer acho que nem um décimo do que a gente faz sem ter tido o auxílio da comunidade desde o começo”. Saiba mais sobre essa história aqui. 

Como participar

Para contribuir, basta acessar o site budioes.org e preencher o formulário de Ciência Cidadã, anexando uma foto do peixe avistado, entre outras informações. Para facilitar a identificação da espécie, o Projeto Budiões incluiu no formulário uma lista com imagens dos peixes em suas diferentes fases de vida. É possível também baixar o aplicativo do projeto, disponível para Android e iOS.

“Desenvolvemos o aplicativo para que o colaborador pudesse fazer isso de maneira rápida. O mergulhador chega cansado, então precisa ser algo ‘pá-pum’, tirou a foto, enviou”, detalha Fabiana.

Ao fim de cada mergulho, o envio de uma foto deixa de ser apenas um registro de viagem para se tornar uma peça fundamental no quebra-cabeça da conservação marinha brasileira.

 

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