Da pesagem de alimentos à saúde planetária: como um projeto ciência cidadã reduziu em mais de 70% o desperdício em merendas escolares
No Dia Internacional de Conscientização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos, conheça pesquisa que transforma estudantes do 5º ano em cientistas cidadãos, aliando aprendizagem prática, combate ao desperdício e impacto em políticas públicas.
Neste 29 de setembro é celebrado o Dia Internacional de Conscientização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a organização, cerca de 13% dos alimentos produzidos mundialmente são perdidos entre a colheita e o varejo, enquanto outros 19% são desperdiçados no consumo doméstico, em serviços de alimentação e no comércio. Isso resulta em cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos desperdiçados por ano.
Em um cenário global onde centenas de milhões de pessoas enfrentam a fome diária, o descarte sistemático de comida revela uma crise estrutural e ambiental crítica. No Brasil, a contradição do sistema alimentar se estende do agronegócio à mesa do consumidor. Gargalos logísticos de transporte, falhas no armazenamento e hábitos irrefletidos de consumo resultam na perda contínua de toneladas de refeições perfeitamente adequadas.
Para se ter uma ideia da gravidade, a fome e a incerteza sobre o que comer afetam diretamente a vida de milhões de famílias no país. Segundo dados do IBGE, através do levantamento sobre Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a fome extrema caiu nos últimos anos e hoje afeta 3,2% das casas brasileiras — o que ainda representa cerca de 2,5 milhões de lares sem comida suficiente.
A situação já foi bem mais crítica. Em 2022, o Brasil voltou a fazer parte do Mapa da Fome, uma lista internacional da ONU que inclui países onde mais de 2,5% da população vive em estado contínuo de desnutrição. Naquele ano, 61,3 milhões de pessoas não tinham garantia de que conseguiriam fazer as refeições do dia — ou seja, 3 em cada 10 brasileiros não sabiam se teriam o que comer.
Esse quadro piorou muito durante a pandemia de Covid-19. O desemprego, a perda de renda e o aumento no preço da comida fizeram a fome explodir: no pior momento de 2022, 33,1 milhões de pessoas não tinham o que comer diariamente no Brasil, conforme mostrou a pesquisa da Rede PENSSAN.
Nos últimos anos, a volta de programas de transferência de renda e o apoio aos pequenos agricultores ajudaram o país a reagir, permitindo que o Brasil saísse novamente do Mapa da Fome da ONU. Mas os impactos da crise ainda deixaram marcas profundas: mais de 54 milhões de brasileiros ainda vivem com algum grau de incerteza em relação à alimentação, o que reforça a urgência de evitar todo e qualquer desperdício.
Frente a esses desafios, iniciativas ancoradas na ciência cidadã demonstram como o ambiente escolar público pode liderar intervenções de impacto direto no problema.
O protagonismo estudantil

O protocolo da pesquisa foi aplicado para 147 estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental, de 10 escolas públicas de diferentes regiões do município de São Bernardo do Campo (SP)
Uma pesquisa desenvolvida na rede municipal de ensino de São Bernardo do Campo (SP) demonstrou como o engajamento direto de crianças pode transformar a relação com a merenda escolar. Conduzida pela pesquisadora e educadora Jussara Almeida Bezerra no Programa de Pós-Graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática da Universidade Federal do ABC (UFABC), sob orientação da Profa. Dra. Natalia Pirani Ghilardi-Lopes, o estudo trabalhou com estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental espalhados por 10 escolas públicas.
Através de protocolos práticos de ciência cidadã, as próprias crianças assumiram a amostragem: realizaram a pesagem do descarte pós-refeição, registraram os indicadores, tabularam as variações e debateram estratégias para conter as perdas. “A ciência cidadã, ela é bastante encantadora porque quando a gente pensa em toda a sequência de ações que o indivíduo pode ser submetido, a gente percebe ali um sujeito ativo, participativo na coleta de dados, na análise de dados, no compartilhamento desses dados. As crianças puderam ter práticas em que elas foram produtoras de conhecimento”, destaca Jussara.
Para quem acompanhava o dia a dia da sala de aula, o impacto foi imediato. “O projeto casou perfeitamente com o conteúdo de alimentação saudável que eu já trabalhava em ciências”, relata Gislene Gutierrez Galo de Souza, professora na Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Júlio de Grammont. “Ao acompanhar a pesagem do desperdício, os alunos entenderam na prática a importância do consumo consciente. É um trabalho que desenvolve a cidadania e planta uma sementinha sobre o cuidado com a natureza e com o planeta”, complementa a docente.
Os dados obtidos pela pesquisa impressionam. As 10 escolas participantes conseguiram reduzir, em média, 70,4% do desperdício de comida durante o período em que o projeto foi aplicado. Em uma das unidades, o engajamento foi tão alto que o descarte de alimentos no pátio foi zerado em 100%.
A mudança também fica clara quando olhamos para a quantidade de comida jogada fora por cada estudante: a sobra diária por aluno despencou de 127,3 gramas para apenas 33,2 gramas. Além de jogar menos comida fora, as crianças passaram a aceitar melhor as refeições oferecidas: em metade das escolas avaliadas, a quantidade de alunos que passou a comer toda a merenda subiu mais de 50%.
Pelo impacto alcançado, o estudo foi 1º lugar na categoria Pesquisa Científica no Prêmio Josué de Castro de Combate à Fome e à Subnutrição, premiação concedida pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo para destacar iniciativas de impacto em segurança alimentar.
Uma mudança de olhar

O trabalho resultou, também, na apresentação de pôster com resultados da pesquisa no II EBCC, em 2026, em Curitiba. Na foto, Jussara e Natalia, da esquerda para a direita. Foto: Divulgação INCC
A pesquisa propôs uma mudança no modo como a ciência é ensinada na escola. Em vez de focar apenas na chamada “didática” — a forma como o professor ensina —, o projeto adotou o conceito da matética, que é o olhar voltado para como o próprio aluno aprende. “Quais são os processos envolvidos ali na aprendizagem voltada para o indivíduo? A ciência cidadã tem uma conexão muito forte com essa concepção, porque a ideia é olhar para o sujeito na sua centralidade, ele praticando e produzindo o conhecimento”, explica a pesquisadora.
Durante as análises do lixo pós-refeição, os estudantes começaram a ligar o peso da comida descartada aos recursos naturais que foram gastos para produzi-la, como a enorme quantidade de água utilizada na agricultura e na pecuária. Jussara conta um pouco de como adaptou o conteúdo para os alunos do quinto ano: “eu usei muito a água como recurso principal para fazer uma transposição. Poxa, a gente desperdiça quanto de água quando joga 20 kg de carne fora, 10 kg de carne fora, que você observa facilmente na lixeira de uma escola? A gente pode ir cruzando esses dados e entendendo numa escala maior”.
Essa visão integrada se conecta diretamente com a ideia de Saúde Planetária, explicada pela professora. Esse conceito mostra que a saúde das pessoas depende diretamente da saúde do meio ambiente, e que hábitos de consumo inconscientes prejudicam essa relação.
“A lógica capitalista, produtivista, consumista desconecta o ser humano do seu meio, do seu entorno. A saúde planetária é uma concepção de se perceber conectado a esse meio e esse meio a nós. Quando você descarta alimentos, você aumenta a emissão de gases na atmosfera, o desperdício e o esgotamento dos recursos, e a possibilidade da ampliação dos desastres climáticos”, acrescenta a pesquisadora.
Essa transformação na forma de pensar ficou comprovada nos relatórios do estudo: no início do projeto, apenas 8 alunos entendiam que jogar merenda fora prejudicava a natureza. Ao final do monitoramento, 23 crianças demonstraram essa consciência socioambiental, manifestando empatia por quem passa fome e vontade de mudar os hábitos dentro de casa.
Das salas de aula para as políticas públicas
A experiência de São Bernardo do Campo revelou que as informações coletadas pelas próprias crianças podem ajudar o poder público a tomar decisões melhores e mais eficientes. Jussara, que no momento também atua como Secretária Adjunta de Educação no município, explica como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) pode ganhar mais força ao incluir ações de combate ao desperdício e de justiça climática: “O PNAE tradicionalmente vê muito a alimentação no âmbito da nutrição, e penso que é uma necessidade olharmos também a alimentação numa perspectiva de sustentabilidade. Precisamos da educação como política pública comprometida com o enfrentamento e a resiliência para com esse tipo de fenômeno”.
A iniciativa continua avançando: agora no doutorado, Jussara irá investigar como essas atividades ativam sentimentos como empatia, solidariedade e responsabilidade social nos alunos. O objetivo final é criar uma ferramenta prática que ajude escolas públicas de todo o país a avaliarem o impacto socioemocional da ciência cidadã na vida dos estudantes.
Em meio às discussões globais suscitadas pela data de hoje, a experiência nas redes públicas evidencia o potencial da ciência cidadã como ferramenta metodológica para mapear problemas, envolver a comunidade escolar e produzir conhecimento aplicável à gestão pública