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Cantoria de Quintal traz dicas para projetos de ciência cidadã em escolas na série “Dicas do INCC”

O Sétimo episódio da série conta com as dicas de João Victor A. de Lacerda, pesquisador do Cantoria de Quintal, projeto de ciência cidadã do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA)

Curitiba, 06 de fev. 2026.  Por Joana Giacomassa de Oliveira, com apoio de Karen Sailer. 

Para muitas pessoas, o som do coaxar dos sapos, rãs e pererecas pode ser assustador, afinal, quem nunca ouviu, quando criança, a velha história de que não se mexe com sapo porque vai espirrar um “leite” que pode te deixar cego? A antiga cantiga “O sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer. Mas que chulé!” também não deixou uma boa imagem para os anfíbios. 

Essas são algumas de muitas desinformações sobre os anfíbios que, como conta o biólogo, João Victor Andrade de Lacerda, estão no imaginário popular e tendem a causar repulsa por esses animais. E se eu te dissesse que esse som, tão familiar aos nossos ouvidos, é parte essencial de um projeto de ciência cidadã? 

Nesta edição do quadro “Dicas do INCC”, publicado na  última sexta-feira (30) nas redes sociais, conversamos com João – nas palavras dele – um apaixonado por anfíbios. João é doutor em Zoologia e mestre em Biologia Animal, integra o Grupo de Trabalho 3 e 5 da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e é pesquisador no INMA, onde atua com o Cantoria de Quintal.

O pesquisador trouxe sua bagagem profissional e experiência no projeto e, juntos, chegamos em 6 dicas para projetos de ciência cidadã em escolas. Você pode conferir o material completo aqui:

 

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Um post compartilhado por INCT – Ciência Cidadã (@inctcienciacidada)

Durante nossa conversa, comparamos o trabalho de ciência cidadã nas escolas ao de uma equipe esportiva, em que a integração e a participação de todos (treinador, auxiliares técnicos, preparadores físicos, analistas de desempenho  médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, massagistas e jogadores) compõem o sucesso do time.  Mas antes mesmo da escalação, o primeiro passo – e um dos mais importantes para o sucesso da iniciativa de ciência cidadã em uma escola – é compreender a fundo a realidade do local.

Por isso, a primeira dica é:

Dica 1: Entenda o contexto e realidade do local em que você irá trabalhar:

O bom funcionamento de um projeto de ciência cidadã depende de compreender a fundo a realidade da comunidade (escola, cidade, estado, vila). Tome conhecimento e estude o maior número de informações possíveis sobre, por exemplo, a faixa etária e a realidade socioambiental do público que irá integrar o seu projeto como cientistas cidadãos.

João comenta que, ao trabalhar na sensibilização ambiental com as crianças e introduzir a temática, ele busca sempre falar daquilo que elas já conhecem. Ou seja, trazer exemplos locais, “eu tomo cuidado para não falar de espécies do Canadá, por exemplo. “Eu falo dos bichos da Mata Atlântica. Em um projeto regional, eu falo regionalmente , incluindo exemplos e curiosidades que são conhecidos para o município em questão”. Coletar o máximo de dados possíveis fará toda a diferença no processo e é essencial ao trabalhar com crianças. “Mas, antes de convencer as crianças sobre a importância do projeto, é preciso convencer o professor”, ressalta o pesquisador.  E é aí que entra nossa segunda dica: 

Dica 2: Seja sempre parceiro dos professores:

Não apresente seu projeto aos professores como se fosse uma obra acabada. Antes de mais nada, é importante ouvi-los e, juntos, amadurecer a proposta. Professores já possuem agendas bastante sobrecarregadas. Logo, deixe claro que sua intenção não é atarefá-los ainda mais. Pelo contrário, a ideia é tentar entender como seu projeto pode ajudá-los em sala de aula. A interdisciplinaridade também pode promover maior compreensão e engajamento da comunidade escolar como um todo. Ter o professor jogando no seu time é um grande passo para o sucesso do projeto! 

Antes de contextualizar a ciência cidadã, é preciso que todos compreendam a temática do projeto. No caso do Cantoria de Quintal, que tem como objetivo o monitoramento acústico de sapos, rãs e pererecas, o primeiro passo é “desmistificar um pouco os anfíbios, falando da diversidade, da importância”, como comenta João. Por isso, preste atenção à terceira dica:

Dica 3: Realize atividades educativas sobre a temática trabalhada: 

Antes de falar sobre ciência cidadã, a teoria e importância da temática trabalhada deve ser compreendida por todos, especialmente ao tratar de questões ambientais com crianças. Atividades de sensibilização e educação ambiental são essenciais e devem ser contínuas. 

Esse é o momento de construir uma relação com as crianças, explicar as particularidades e singularidades do objeto de pesquisa. Os anfíbios são importantes na manutenção do equilíbrio ambiental, controle de pragas e vetores de doenças e muitas espécies são bioindicadores de qualidade ambiental, pelo fato de serem animais muito sensíveis e dependentes tanto do ambiente terrestre, quanto aquático, bem conservados.

A próxima dica também fala sobre o trabalho com as crianças. Para despertar a curiosidade, o interesse e, posteriormente, o engajamento, fuja da rotina tradicional, mas sem perder de vista a dica 2: tudo de acordo com o programa de ensino e orientações dos professores! 

Dica 4: Fuja da rotina tradicional de ensino

Apesar de ser “coisa séria”, fazer ciência pode sim ser bastante divertido. Em todas as etapas do projeto, especialmente em escolas, despertar interesse e curiosidade pode ser mais fácil através de atividades artísticas, músicas, vídeos, sons, imagens, brincadeiras e gincanas, por exemplo. 

Com o projeto já em andamento, levando em consideração as dicas anteriores, outro ponto essencial é o protocolo de ciência cidadã que será utilizado. Neste momento, é importante lembrar que cada iniciativa é singular e os protocolos podem ser co-construídos ou não, a depender do tipo de projeto e suas possibilidades. No Cantoria de Quintal, entendeu-se que um protocolo simples gera maior proximidade e eficiência.  

 

Dica 5: Opte por protocolos simples e eficientes

Protocolos estruturados e mais complexos costumam demandar mais tempo e esforço voltados ao recrutamento e engajamento continuado dos cidadãos cientistas, especialmente de crianças. A depender do tempo disponibilizado pelas escolas para essas atividades, pode ser benéfico optar por protocolos mais simples. 

No Cantoria de Quintal, por exemplo, o público realiza gravações de coaxos utilizando o Whatsapp e a localização também pode ser fornecida utilizando o próprio aplicativo, tornando o processo muito simples e rápido. Ah, e o mais importante: os protocolos devem, sempre, garantir a participação do público em segurança!

Por fim, mas não menos importante, as devolutivas são essenciais e devem ser contínuas: 

Dica 6: Realize devolutivas continuamente 

Iniciativas de Ciência Cidadã são coletivas, não são vias de mão única para obtenção de dados pelos pesquisadores. Assim, conforme as crianças interajam e enviem dados, é importante que entendam e acompanhem os progressos do projeto. 

Para cada registro realizado, o Cantoria de Quintal informa aos estudantes aspectos básicos da espécie. Além disso, também é importante a realização de apresentações que sintetizem os avanços do projeto como um todo, como: número de registros, número de espécies, número de cidadãos cientistas, mapeamento dos registros. 

Esse retorno deve ser constante e estar presente em todas as etapas. Assim, os cidadãos cientistas sentirão que, de fato, fazem parte do projeto.

Pensando no exemplo dos anfíbios e sua “má reputação”, informações adicionais e curiosidades ajudam também no processo de sensibilização ambiental. João nos enviou um áudio recebido através do projeto e um exemplo de devolutiva enviada por ele, que acompanham materiais complementares para que o cientista cidadão conheça a espécie que está registrando.

Conheça mais sobre o projeto Cantoria de Quintal 

O projeto tem como objetivo geral estimular o interesse da população por anfíbios, ciência e conservação, envolvendo o público em pesquisas de inventários ou monitoramento de anfíbios anuros no município de Santa Teresa (ES). Para isto, o projeto busca incluir cidadãos no processo de coleta de dados bioacústicos.

A partir dessas serenatas, os pesquisadores buscam desvendar quando e quais espécies estão cantando em cada quintal, dando início a um monitoramento acústico de sapos, rãs e pererecas. Como, infelizmente, não podem estar no quintal de todos, contam com a participação do público para juntos fazer ciência e conservação.

Cada espécie de sapo, perereca ou rã possui uma cantoria exclusiva. Assim, muitas vezes, não é preciso ver uma espécie para saber que ela ocorre numa dada região, basta ouvi-la cantar. Por isso, a contribuição é tão importante. A partir das gravações, é possível saber: 

1) quais espécies ocorrem em Santa Teresa; 

2) se essas espécies ocorrem em poucos ou muitos lugares do município;  

3) quando cada uma dessas espécie está se reproduzindo.

Como participar

Nem precisa se aproximar muito, basta apontar seu celular para a cantoria do seu quintal, realizar 30 segundos de gravação e nos enviar via whatsapp para o número: +55 27 98115 6377

Equipamentos necessários

Gravador de áudio ou celular com gravação de áudio e com whatsapp instalado.

O episódio completo e demais episódios da série “Dicas do INCC”, você pode acessar através do Instagram: @inctcienciacidada.

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